Marcelo Freixo: o super-herói real, de carne e osso, que Veja não viu!

 

“Podrán cortar todas las flores, pero no podrán detener la primavera.”

Pablo Neruda

Brasília, 20 de Novembro de 2010.

 

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#vejamente. Essa hashtag, ou simplesmente tag, já é conhecida dos usuários do Twitter. Tags são palavras precedidas de cerquilha (octothorpe), ou jogo da velha, como é popularmente conhecido o símbolo #, que facilita o acompanhamento de determinados assuntos pelo Twitter. Mas após a reportagem “O primeiro super-herói brasileiro”, em que a revista se refere ao ator Wagner Moura de Tropa de Elite 2, o famoso Capitão Nascimento do primeiro filme, como o salvador do problema da segurança, poderíamos divulgar uma outra tag: #vejaomite. No caso do filme, talvez pior que mentir, o que Veja está acostumada a fazer (e o faz com muita propriedade, nem os conservadores duvidam), seja omitir. É fato que o super-herói, tanto em Tropa de Elite 2 como fora da ficção, é Marcelo Freixo, interpretado no filme de forma brilhante pelo ator Irandhir Santos. Portanto, fácil é a tarefa de desmentir (ou mostrar) o verdadeiro, real e super-herói dessa história a partir de 3 perguntas: quem é Marcelo Freixo (Deputado Fraga), quem é o BOPE (Nascimento, subsecretário de Segurança do RJ) e, obviamente, quem é a revista Veja (que poderia ser o Deputado Fortunato do Programa Mira Geral).

O deputado estadual pelo PSOL-RJ Marcelo Freixo é, no filme, o deputado Fraga, personagem casado com a ex-mulher de Nascimento. Também negocia uma rendição de presos em Bangu I que acaba em tragédia. Essas duas informações não procedem. Freixo, no cotidiano, é casado e tem filhos, mas não com a ex-mulher de um ex-capitão do BOPE do RJ. Deu aulas de história por muitos anos em presídios cariocas e negociou várias rebeliões, mas nenhuma delas acabou em mortes, e essa é a outra parte que não imita a realidade. Nada que faça um excelente filme como Tropa de Elite 2 perder seu brilho, pois o objetivo principal do filme não é ser um documentário, mas utilizar o cinema para passar o que de fato acontece do Rio de Janeiro de forma pedagógica.

Como militante dos direitos humanos, Freixo fez as leis que previnem a tortura e que reconhecem o funk como patrimônio cultural, bem como emendas constitucionais que garantem a ampliação do período de aleitamento materno das servidoras estaduais para 6 meses e a da obrigatoriedade de animadores culturais nas escolas. Denunciou a fraude do auxílio-educação do Estado, o que rendeu a cassação das deputadas Renata do Posto e Jane Cozzolino, e também a limpeza étnica que as UPPs do governador Sérgio Cabral fazem na cidade. Mas foi sua atuação como presidente da CPI das Milícias na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro em 2008, indiciando 226 pessoas, alguns dos quais parlamentares milicianos, como Álvaro Lins (ex-chefe de polícia no RJ) e morto por queima de arquivo, que lhe dá características particulares.

Nascimento, o representante do BOPE, mesmo subindo de cargo, está mais inteligente em Tropa de Elite 2: age menos com o gatilho e mais com o cérebro. Porém, ainda conserva traços típicos da brutalidade comum à polícia militar não só do RJ, mas de todo o país. “Missão dada é missão cumprida”, diz o jargão do BOPE, não importa se cumprir missão seja a morte de inocentes como ocorre há anos. Ora, é claro que a cena em que Nascimento faz uma falsa blitz para dar uma surra num deputado é uma fantasia. No dia em que o BOPE resolver se revoltar contra a corrupção, a ideia de polícia perde o sentido. A polícia é por si empregada do Estado, seja ele qual for, e obedece às suas ordens sem pestanejar. O BOPE do DF, por exemplo, partiu pra cima de estudantes e trabalhadores para defender o ex-governador corrupto do DF, José Roberto Arruda, em dezembro de 2009, no que ficou conhecido como Batalha do Buriti. Talvez porque tenham recebido um aumento salarial na mesma época em que os protestos se acirravam, inclusive com a ocupação da Câmara Legislativa do DF.

Em Tropa de Elite 1, Nascimento se achava um Steven Seagal, um Van Dame, ou seja, a concepção de filme americano: morre o traficante e acabam as drogas. Em Tropa 2, Nascimento vê que mesmo se o tráfico acabar, ou todos os traficantes do RJ morrerem, o problema da segurança permanece. “O sistema elege novos líderes”, diz o filme. Não bastasse essa constatação, as milícias – mote do combate de Nascimento no segundo filme – vêem um lucro muito maior na venda de água, no “gatonet”, nas vans, no empréstimo, nas lan houses, no gás de cozinha, tudo fora do controle dos policiais, ou melhor, do que restou de policiais honestos. É cada um por si, ou “cada cachorro que lamba a sua caceta”, como diz um dos jargões que ficou famoso. Logo, Tropa 2 acaba com a ideia de super-herói tal como conhecemos nos filmes de Hollywood: não existe dar pirueta pra escapar de tiro, nem sair batendo em vários bandidos ao mesmo tempo. Em Tropa 2, as pessoas morrem por muito pouco, ou por nada, pois não falta bala perdida ou com direção. E não importa se é personagem secundário ou de referência, como o Capitão Mathias (rapper André Ramiro), morto covardemente pelas costas pelo chefe da milícia em frente ao Capitão Fábio (Milhem Cortaz), a quem salvou da morte em Tropa de Elite 1.

Veja dispensa apresentações: de tão medíocre, a revista é criticada até pelos sociais-democratas ou neoliberais por sua forma rasteira e inconsequente de fazer jornalismo. Talvez por isso não cite em nenhum momento Marcelo Freixo na reportagem que traz na capa o super-herói fictício Nascimento. Tudo bem que Wagner Moura faz uma excelente atuação, mas quem vê o filme observa de maneira clara que Nascimento se rende (não no sentido policialesco da palavra) ao Deputado Fraga e vê que nem todas as pistolas do mundo podem acabar com um problema como a corrupção. Nascimento reconhece a fragilidade de seu trabalho de 21 anos frente à PM-RJ dizendo que toda corporação deve ser extinta.

Somente um veículo de deturpação imbecil, mesquinho e ultrajante como Veja não vê o óbvio: um trabalho sério de Freixo na ALERJ que até mesmo a oposição não só reconhece como elogia. Querer esconder um deputado socialista, ético e, sobretudo querido pela população (foi reeleito em 2010 com a segunda maior votação no RJ, principalmente por áreas atingidas por milícias) só torna a revista, cada vez mais, um papel higiênico letrado, mais do que indexadora de propagandas. Se Fraga é Freixo e Nascimento é Rodrigo Pimentel (ex-capitão do BOPE-RJ e, vejam só, assessor de Freixo), Veja se enquadraria perfeitamente no Deputado Fortunato do programa Mira Geral, interpretado de forma irônica e magnífica pelo ator André Mattos: o aparelho ideológico do Estado, que justifica as chacinas cometidas pela PM em horário nobre, modificando-a de vilã à super-herói e legitimando outras ações violentas do Estado. É o que faz o programa de Wagner Montes, candidato campeão de votos no Rio para a ALERJ.

Então por qual motivo Freixo é um super-herói?

Bem, Nascimento não morre nem no filme, e nem o ex-capitão do BOPE do RJ em quem Nascimento é inspirado sofre como Freixo. Desde que presidiu a CPI das milícias e desmantelou diversas quadrilhas de milicianos, principalmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Freixo não tem mais sossego. Não vai ao trabalho fazendo a mesma rotina e tem que andar acompanhado de vários seguranças com armas de grosso calibre para onde for, além de mudar de endereço com frequência. Em Tropa 2, Nascimento escapa de uma emboscada de milicianos. Na vida real, só em 2010 foram descobertos 4 planos para matar Marcelo Freixo. No filme, embora menos raivoso, Nascimento ainda conserva traços de machismo, enquanto o Deputado Fraga cozinha num fogão de 4 bocas, ajuda a mulher com as tarefas domésticas e discute sobre vários assuntos com o enteado, inclusive sobre o uso da maconha. Nada diferente do deputado Freixo em seu dia-a-dia, tirando a parte de ficção do casamento do deputado já comentada. Freixo deixou de se relacionar com vários amigos, e os poucos que mantém contato evitam chama-lo para festas ou outras confraternizações. No filme, o filho de Nascimento leva um tiro que era pra ter acertado o Deputado Fraga e apagar um arquivo vivo que investigava as milícias. Na vida como ela é, os filhos e a mulher de Freixo vivem em escolta permanente.

Dito isso, fica fácil saber quem é o super-herói dessa história, que é fictícia para Nascimento, mas bastante real para Freixo. Você que é universitário, secundarista, twitteiro, orkuteiro, trabalhador, maconheiro, empresário, morador de rua, clérigo, deputado. Você que lê esse texto, responda com sinceridade: denunciaria um policial corrupto? Mais: denunciaria uma quadrilha de milicianos e indiciaria 226 pessoas, dentre as quais parlamentares com foro privilegiado? Você comprometeria a sua vida, da sua mulher e de seus filhos por um ideal, para ver a população do Rio de Janeiro livre da coação de bandidos vestindo fardas de policiais e pagos com o dinheiro dos seus impostos? Você colocaria todo o planejamento de sua vida em segundo plano para viver o resto de seus dias escoltado, aviltado por veículos da imprensa que não reconhecem o seu trabalho e que poderiam ajudar no combate ao crime, mas preferem eleger personagens da ficção como super-heróis? No mundo da fantasia, o Homem-Aranha usa máscara para proteger sua tia e Mary Jane. O mesmo acontece com Batmam para proteger o mordomo Alfred. Jaspion, Jiraya, Changerman, The Flash, Power Rangers, Wolverine, os heróis e super-heróis dos quadrinhos não tem a Veja para protege-los, mas escondem a identidade, tem superpoderes e desaparecem sem deixar rastros. Freixo não tem superpoderes. Não precisa. Também não tem atuação pontual como os super-heróis tradicionais, pois teima em resolver o problema da sociedade como um todo. Fosse a segurança problema de um só elemento, não precisava Freixo: bastava algum metido a Nascimento matar o indivíduo, mas não é assim que acontece. Mais do que viver para continuar sua história de luta, Freixo dá o exemplo arriscando a própria vida para tornar o Rio de Janeiro um local menos violento e livre da ação de bandidos, fardados ou não.

Marcelo Freixo: o super-herói real, de carne e osso, que Veja não viu!


Texto original escrito em 18/11/2010, editado em 20/11/2010.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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