Tragédia de Realengo: precedentes, presente e perspectivas

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Trabalho da disciplina FHTM 3 (Fundamentos Históricos, Teóricos e Metodológicos do Serviço Social 3), Professora Kênia Augusta Figueiredo, do Departamento de Serviço Social da UnB, também disponível em www.ayanrafael.wordpress.com

 

O mundo inteiro se comoveu com o massacre cometido por Wellington Menezes de Oliveira em Realengo, Rio de Janeiro, matando 12 crianças e ferindo várias outras na própria escola em que estudou. Para além dos comentários no calor da emoção, que atinge não só os familiares, mas a todos que têm o mínimo de respeito pela vida humana, é bom fazermos alguns apontamentos para tentar explicar aspectos que antecederam, que ocorrem nesse momento e que são perspectivas advindas diretamente dessa carnificina – mesmo que o momento atual se confunda um pouco com o futuro. Em se tratando de educação, uma das 7 políticas sociais brasileiras – juntamente com saúde, assistência social e previdência, que compõem a Seguridade Social, e habitação, transporte e trabalho –, torna-se claro que a escola tem um papel importante para a resolução de conflitos dessa natureza, mas precisa de auxílio de distintos profissionais. Adiante, a temática de direitos humanos não está relacionada somente à crimes de tortura ou segurança alimentar, mas encontra na educação um de seus pilares.

Quando ocorre um assassinato em série e a polícia prende o homicida, além da sensação de alívio que as pessoas sentem, é como se pudessem vingar a morte de seus familiares. Mesmo quando o assassino não é encontrado, há a esperança de que um dia seja preso e pague pelo que fez. Porém, há também resignação, impotência mesmo, quando ocorre do assassino morrer no tiroteio com a polícia e, mais, quando este se mata, como no caso em questão. E por quê Wellington se matou? Mais que isso: por quê matou criaQuando as crianças são vítimas de bullyingnças que nem eram de sua época na escola? Uma das respostas, mas não a única, é que se trata de um caso típico de bullying. Algumas pessoas que estudaram com Wellington disseram que ele era muito quieto, com relações sociais mínimas (inclusive depois de adulto, já no mercado de trabalho) e, como se não bastasse, quando criança, era constantemente agredido (física e psicologicamente) em sua turma. Não é à toa que Wellington escolheu a escola em que estudou para fazer sua vingança, ou outro chamado que até o momento não foi descoberto. O bullying, nesse caso, não se manifestou diretamente contra quem o praticou, mas sim posteriormente. A carta que escreveu tenta negar o bullying, mas é reveladora no aspecto de que o sofrimento de Wellington vinha de muito tempo, daí a dedução. Para nós, obviamente, um absurdo, pois projetamos nossa cabeça no corpo do assassino e não vemos razão para isso. Para ele, tranquilidade quase que absoluta, mesmo porque já sabia que iria morrer e preparou todo o cenário para a polícia, com cartas, mensagens em casa e outros elementos que ainda são cacos de um grande mosaico na compreensão da mente doentia do homicida.

Algumas pesquisas apontam que o aumento da agressividade em crianças, substancialmente após a década de 1990, está relacionado a 3 fatores, a saber: a) uma alimentação rica em produtos industrializados, com muito açúcar, que aceleram o metabolismo mais ainda em época de crescimento; b) o Estado, a família e a igreja perderam poder sobre as crianças e, consequentemente, essas não lhes veem mais como exemplos; e c) uma quantidade cada vez maior de informação em um curto período de tempo, fazendo com que não haja transformação da informação em conhecimento, principalmente em crianças, que estão começando a formar seus conceitos para a vida adulta. Coincidência ou não, Wellington parece se encaixar nesses 3 quesitos: alimentação com excesso de ovos e refrigerantes, quase nenhum contato social e tempo excessivo na internet. A diferença é a idade física de Wellington, embora sua idade mental seja mais atrasada – o que não  o impediu de ter acesso à uma arma e muita munição. Note que não é objetivo desse trabalho concordar com esses exemplos, mas apenas colocar alguns elementos para ajudar a pensar o caso de Realengo com a conjuntura atual a partir de uma atuação cada vez mais próxima entre Pedagogia, Serviço Social e Psicologia nas escolas. Também, minha perspectiva de trabalho, como Pedagogo e estudante de Serviço Social, não é a do discurso conservador, policialesco, de que aulas de educação moral e cívica e religião aliadas ao corte do acesso à internet e uma boa alimentação resolveriam o problema. O bullying é uma questão social muito mais complexa, que se expõe nas contradições do sistema capitalista de forma cada vez mais latente.

Dada as possíveis condições que levaram Wellington a cometer o crime, há desdobramentos para o período atual. Um deles, e que infelizmente veio dessa forma, é a retomada do debate sobre desarmamento e da situação das escolas no país. Sobre o desarmamento, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não foi votado todo o seu teor no plebiscito de 2005, mas tão só o artigo 35, que trata do comércio de armas de fogo e munição. O resto todo já tinha sido aprovado pelos parlamentares. Essa é uma questão tão emblemática que faz corruptos como Sarney, que defendem o desarmamento, posarem de bonzinhos diante da dignidade do desarmamento. Outro ponto debatido é a segurança das escolas, o que acaba por ser um debate inócuo, pois não ataca a raiz do problema, mas somente sua superficialidade. Ora, Wellington estava disposto a fazer tudo o que fez. Não seria um detector de metal ou a presença da polícia na frente da escola que iria impedí-lo. Ele já tinha visitado a escola anteriormente, falou com um professor no dia do crime, correu do policial militar que o alvejou na perna e, depois, suicidou com um tiro na cabeça. Sendo assim, o problema é anterior, de modo que para resolvê-lo temos que responder às seguintes perguntas: como fazer para que não surja outro Wellington? Existem outros do mesmo tipo e é possível identificá-los? O que fazer para que seu lado cruel não se manifeste? Nossas crianças estão seguras de uma escola excludente, que não tem olhar para o sujeito construir sua própria identidade e estimula o individualismo?

Um fator preponderante para a emancipação do ser humano é trabalhar as relações sociais desde a mais tenra idade. Contato com amigos no contra turno escolar, aulas de música, reciclagem, jogos recreativos, ou seja, uma perspectiva de educação integral. Animais domésticos, além de ter uma representação simbólica de responsabilidade e ajudar no processo de ensino/aprendizagem, contribuem no processo de socialização do indivíduo. Conviver com uma diversidade multicultural (pessoas com deficiência, de outras religiões, etnias etc) colabora tanto quanto viver fora de risco social, num ambiente em que a criança seja respeitada, ouvida, questionada, aprendendo a ter limites e criando seu próprio espaço, seu universo, expandindo seus horizontes mas sem prejudicar o próximo. Essas atitudes certamente contribuem para que não surjam outros assassinos como Wellington, que humilhado na infância alimentou em si o germe de uma revolta sem fim contra o espaço – com seus recursos físicos e humanos – que considerava o culpado pela sua solidão e tristeza.

O importante nesse momento, além do reconforto aos familiares, é combater qualquer tipo de discurso extremista que venha querer combater a violência com mais violência. Somam-se a esses discursos posturas de gestores públicos ou religiosos que querem transformar as escolas em prisões, em que o verdadeiro objetivo não é proteger as crianças, mas sim prepará-las para um terrorismo de Estado, aproveitando-se de um momento de dor para alterações curriculares que vão de encontro ao avanço que movimentos sociais da área da educação conquistaram com muita luta, como a autonomia didático-científica que permite debates importantes em sala de aula como educação sexual e drogas. Exemplos desse fundamentalismo encontramos no racista e homofóbico Jair Bolsonaro (PP-RJ) e em alguns fanáticos de igrejas, felizmente minoria.

Caso não consigamos, por mais difícil que seja, colocar a razão sobre a emoção, além de não conseguirmos frear o surgimento de outros personagens como Wellington, ora assassinos em Realengo, ora em cinemas de shopping em São Paulo ou em outros países, estaremos fadados ao fracasso. Hoje as crianças da escola de Realengo começam a voltar ao normal, com uma readaptação feita com diversos profissionais e posto de atendimento psicossocial permanente na escola. Fazem várias atividades de artes e educação física, o que segundo relato dos próprios estudantes não era uma realidade antes do ocorrido. Infelizmente, essas atividades, com um trabalho de conscientização sobre o bullying, só vieram agora, após o assassinato de 12 crianças. 12 crianças… Talvez se o Governo do Rio de Janeiro tivesse tido a mesma postura de melhorar a escola de Realengo anos atrás as 12 crianças não tivessem morrido e, melhor, o Wellington Menezes de Oliveira, tal qual o conhecemos, não teria nascido.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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4 respostas para Tragédia de Realengo: precedentes, presente e perspectivas

  1. linniker disse:

    ficou muito bom mesmo!!

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  2. Nilson Aliprandi disse:

    Rafael, o seu texto esta muito bom, como o acontecido toca em questoes importantes com a educaçao (que no brasil é deixada aquém), e a violencia, que literalmente invadiu a escola.
    nao podemos fechar os olhos e crer que somente agora a violencia chegou nas escolas, mas na verdade fecha os olhos para o bullyng, as drogas, a violencia aos professores e a outros estudantes.
    acredito que um pouco mas de sensibilizaçao e sensatez podemos discutir bem esse acontencido.

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  3. Diogo disse:

    ótima análise chakrinha!!

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  4. josé carlos disse:

    show de bola!!@

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