Ocupação da reitoria da USP e a eterna luta por democracia nas universidades

Charge: Latuff 2011

Em novembro de 2011 houve um dos maiores conflitos entre estudantes e a Polícia Militar (PM) na Universidade de São Paulo (USP). À primeira vista, todas as análises poderiam parar por aí, mas é prudente identificar causas para além dos achismos de sempre e da opinião de jornais que não tem, como nunca tiveram, compromisso algum com o povo brasileiro, fazendo matérias de encomenda por dinheiro ou até posicionando-se em editoriais contra o movimento estudantil, seu histórico inimigo de classe. Daí explicam-se as declarações raivosas e inconseqüentes de muitos âncoras de telejornais ou editoriais impressos em apontar os estudantes como causadores do problema. Pois bem, vamos traçar alguns paralelos entre USP e Universidade de Brasília (UnB) e ver se o que ocorreu em São Paulo é esse trem fantasma apontado pela imprensa.

No primeiro semestre de 2008 eu era formando em Pedagogia pela UnB e um dos coordenadores do Diretório Central dos Estudantes (DCE) desta instituição, além de compor o Conselho Universitário (CONSUNI), órgão máximo deliberativo da universidade. Naquela época, estávamos em uma dura campanha contra o reitor fanfarrão Timothy Martin Mulholland. Os jornais da época queriam fazer parecer que a revolta dos estudantes da UnB era apenas contra a forma como foi mobiliado o apartamento funcional de representação do gabinete do reitor, mas foi uma luta muito maior. As pautas tinham como eixo a democracia, ferida muitas vezes na gestão Timothy e em outras que o antecederam. Fomos contra o Conselho Diretor da Fundação Universidade de Brasília (FUB), que o atual reitor, Ivan Camargo, quer reativar, por ser o foco onde se iniciaram muitos dos problemas da gestão Timothy, sem nenhuma transparência. Prova disso é que até hoje ninguém conseguiu ter acesso às atas do deste Conselho Diretor da FUB. É dessa época a conquista da paridade, ainda que potencial, e o fim das reuniões do Conselho Diretor da FUB, o que levou para o CONSUNI, espaço não democrático mas ao menos com possibilidade de visualização dos processos, os trambiques que se ajeitavam naquele Conselho e transformaram a universidade num balcão de negócios. A investida contra as fundações privadas ganhou fôlego e a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), que há quase 10 anos não tinha suas contas aprovadas, foi descredenciada. Dessa forma, vê-se que ao contrário do noticiado pela imprensa, o movimento dos estudantes da UnB tinha uma pauta bem mais extensa do que a superficialidade do que queriam os burocratas.

Pensando no caso da UnB, o reitor João Grandino Rodas fez da reitoria uma Tróia, talvez querendo esconder alguns de seus atos nos últimos anos. Resumindo: antes que começassem a levantar suspeitas de suas administração, deu um passo à frente dos opositores e armou um circo para desestabilizar o movimento estudantil. O motivo é algo que alimenta uma mídia ávida por uma matéria que vende muito e mesmo com avanços na sociedade ainda tem aceitação no povo: drogas. Sabia ele que bastava atrair os estudantes para um confronto criado por ele mesmo que rapidamente a situação sairia do controle e viraria uma ocupação que duraria até quando ele quisesse, e assim fez.

Portanto, o que ocorre na USP é uma situação parecida com a da UnB: um reitor incompetente que perdeu o apoio inclusive dos professores que o elegeram e fez a universidade cair no ranking de produtividade nacional e internacional. Mais do que tudo, não soube lidar com a diversidade de uma das universidades com maior multiculturalismo no mundo, colocando a PM para suprir a sua ignorância e covardia de dialogar com demandas de uma instituição no coração de uma cidade cosmopolita e que deveria dar exemplo de solução pacífica de conflitos, como foi toda a história dos paulistas após a Revolução de 1932. Ao contrário do que coloca a mídia burguesa golpista, com o perdão da redundância, os estudantes da USP não queriam ser livres para fumar maconha, uma vez que mesmo infeliz, não posso deixar de fazer a comparação e dizer que na reitoria se é livre para a corrupção e a PM não faz nada. O grito dos estudantes da USP é para que não se deixe prevalecer a voz dos ditadores, que abafam seus tapetes de milhares de reais comprados com verba pública, colocando a PM em meio à uma luta política e chamando a imprensa pra fazer a divulgação de suas intempéries como se fosse defesa do patrimônio público. Qual patrimônio? O tapete voador das Mil e Uma Noites que Rodas comprou com nossa grana? Para quem não sabe, a invasão da PM ao campus veio bem no momento em que os estudantes se preparavam para denunciar o reitor por contratação indevida de funcionários. Para quem acredita em coincidência… não, nem para eles.

Pior nisso tudo é encontrar estudantes que defendem a ação da PM. Uma coisa é defender PM no campus. Eu sou contra, mas acho legítimo debater com quem tem posição favorável à isso. Outra coisa é ver estudante defendendo policial que utiliza gás de pimenta em estudante algemado e sentado, o que configura tortura! Gás de pimenta é para ser utilizado a favor do vento e em local aberto, para dispersar manifestações ou para efetuar a prisão de indivíduo após cessada a comunicação verbal, utilizando por um segundo na direção do tórax e em seguida levando-o para local arejado. Em qual dessas situações se configura um estudante sentado e algemado dentro de um prédio?

Outros estudantes, que estavam de fora da ocupação da reitoria, mas filmando lado a lado com policiais à paisana, foram presos e agora compõem o “time” de potenciais criminosos que estavam depredando a universidade, mesmo já tendo adentrado algemados o cordão de isolamento da PM. Não deveriam estar lá? Tinham que estar em casa e assistir seus colegas serem espancados e difamados na TV, como fazem os fofoqueiros nas redes sociais? Não se pode compreender como que não há informação de ocupações de reitoria em que se utilizou algum coquetel molotov, mas vídeos de execução por parte de policiais militares tem aos montes na internet. Não quero aqui julgar todos policiais por conta da atitude de alguns, mas tirem suas próprias conclusões.

Enquanto o movimento estudantil europeu vai às ruas protestar contra aumento de mensalidades, os do Brasil só querem “join to my cause” com a foto de Renan Calheiros no Facebook. Na Inglaterra, quando um estudante é preso, os outros vão juntos para tentar libertar, mesmo sabendo que podem ser presos e, assim, sendo um grupo, dificultar a criminalização, a individualização de um ato político e a possibilidade de tortura quando se leva um ou poucos manifestantes. No Brasil, os estudantes que protestam são ridicularizados por seus próprios pares que, ao invés de apoiá-los, torcem para que sejam presos e sirvam de exemplo. Mal sabem eles o mal que isso representa, dando margem à ações cada vez mais freqüentes e violentas por parte do Estado contra manifestações populares. Se olharmos a Europa em recessão e o Brasil em crescimento, podemos dizer que junto com a ampliação da linha de crédito – e do endividamento das famílias brasileiras – veio a soberba e mania de riqueza substituindo o espírito de solidariedade comum ao povo brasileiro e principalmente à juventude. A ética protestante nunca se fez tão presente. Talvez isso explique se preocupar com garrafas com gasolina (o que não é coquetel molotov) e naturalizar centenas de policiais usando fuzis e helicópteros, tudo isso com nossos impostos, contra quem está acostumado a segurar livros. Novamente não vê-se a preocupação com a res publica como com as mesas e cadeiras da USP. Por mais que esses estudantes reagissem, é justo centenas de policiais e atiradores atirarem em manifestantes? Se a resposta para essa pergunta é não, então por quê diabos eles utilizavam armas letais?

Enfim, a promotora Eliana Passarelli acusou os “perigosos” estudantes de posse de material explosivo, desobediência à ordem de funcionário público, formação de quadrilha e destruição de patrimônio público. Como disse a promotora Passarelli, “não dá pra dizer que estamos lidando com estudantes, eles são bandidos”. Enquanto isso, mocinhos como Paulo Maluf, procurado (?) pela Interpol, continua “foragido”, mas faz alianças nas eleições e dá tempo de TV à candidatos que chegam a ganhar a prefeitura de São Paulo, como o ex-ministro da Educação e atual prefeito Fernando Haddad, que até o momento faz jus ao seu doutorado em pilantropia e continua tão imparcial e cartesiano quanto Durkheim, tentando entender se o que ocorreu na USP tem as três características de fato social. Os policiais que são filmados em execução e confessam o crime, não tem seus rostos mostrados na imprensa como os “marginais” maconheiros da USP. Geraldo Alckmin continua imune ao massacre da comunidade de Pinheirinho, como a população de SP continua sem política habitacional. Porém, os viciados da USP vão responder por tentar tirar a universidade das mãos de um facínora, como se uma ocupação de reitoria das mais politizadas que já se teve fosse capaz de causar um rombo nos cofres públicos. Tivesse vergonha, a imprensa não estaria confundindo os estudantes com o (esse sim promotora Passarelli) bandido João Grandino Rodas. Infelizmente, em terra de corrupto, quem tem um promotor é rei.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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