Uma outra Educação a Distância é possível… e necessária!

Contribuição ao debate de formação profissional e educação a distância no XXXV ENESS (Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social). Cuiabá, UFMT, 16 jul. 2013.

Rafael Ayan

1.                  Primeiramente… o que é Educação a Distância?

Educação é um processo de formação bem mais amplo do que o ensino. Didaticamente e matematicamente falando, ensino está contido na educação mas educação não está contida no ensino. Portanto, educação remete à um olhar sobre a ontologia do(a) ser social, sua totalidade, o que não ocorre quando fazemos um recorte e falamos apenas em ensino. Acredito que é possível fazermos educação a distância, mais do que ensino, que é o que vemos nessas faculdades sem qualidade denunciadas pelo conjunto CFESS/CRESS. Nesse contexto, o uso das TICs na modalidade a distância deve ser um potencializador de seu aprendizado e não o seu fim.

2.                  Que porra é essa de TICs maluco?

TICs são Tecnologias da Informação e Comunicação. A Petrobras utilizou o rádio desde 1953 para formação continuada de funcionários(as). Na década de 1960, o mesmo aparelho foi utilizado pelo MEB (Movimento de Educação de Base) e Igreja Católica Apostólica Romana para alfabetização de jovens e adultos(as). Ainda nessa década, como afirma Belloni, a Rede Globo fez de Vila Sésamo (remake de Sesame Streetnos EUA) a primeira grande experiência pedagógica brasileira em meios de comunicação de massa. Programas como Telecurso 2000, Um Salto para o Futuro (RJ), TV Escola, Instituto Universal Brasileiro e outros utilizaram o telefone, fax, caixa postal como forma de contato entre os(as) Participantes. A UFMT foi a universidade que primeiramente teve uma graduação a distância, em 1996. Quais TICs utilizaram, se o computador não era um eletrodoméstico comum e menos ainda a internet, discada, ou a Web tinha tanta informação como tem atualmente? E como o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), do qual participam apenas universidades públicas, utiliza as TICs? São algumas perguntas para começarmos a debater EaD. Giz, caneta, data show também são tecnologias. Há professores que utilizam a mesma apresentação em Power Point há anos, como utilizavam o retroprojetor. Se o pensamento de que a aula não deve mudar, nem mesmo para facilitar a compreensão, então a tecnologia não pode fazer muita coisa. Isso ocorre quando somos dominados, mesmo sem perceber, pela tecnologia, ao invés de dominá-la. Então, mesmo dominados, achamos ter autonomia sobre a tecnologia, o que não passa de autonomia operacional, como afirma Feenberg ao abordar a Filosofia da Tecnologia no livro Racionalização Democrática, Poder e Tecnologia.

3.                  Mas EaD não é mercantilização da educação?

Pode ser até pior do que isso, como pode ser melhor. Pode inclusive ser EaD pública: basta retirar-se da defensiva de apontar para os péssimos exemplos de faculdades particulares (como se os cursos presenciais delas também fossem bons) e apresentar o contraponto com um curso público! Há três leis do materialismo histórico dialético que devem ser observadas nesse debate: Lei da Unidade dos Contrários, Lei da Passagem da Qualidade à Quantidade (e vice-versa) e Lei da Contradição. Peguemos essa última lei para analisar a conjuntura de mercantilização da educação. Os dossiês da UNOPAR e UNITINS de que fala o CFESS são a contradição secundária desse processo, pois são somente reflexo de uma política de educação sem qualidade ofertada sem muita regulação pelo MEC, essa sim a contradição básica. O cerne do debate é a política global de EaD do governo federal, que está no poder desde o crescimento exponencial dos cursos a distância no início do século XXI. Nessa conjuntura está a atuação dos organismos internacionais por uma formação tecnicista para o mercado de trabalho, que precisa de mão-de-obra especializada para gerar mais lucros aos patrões. Então a EaD, via de regra, é como a modalidade presencial: mercantilizada! Podemos ter um curso com 2.000 estudantes na mesma turma, como pode ser uma turma de 50 estudantes por professor, como na UAB. Pode ter estágio sem acompanhamento, como pode ter estágio acompanhado pelo Professor Supervisor (o mesmo que dá aula na modalidade presencial) e Professor Tutor (mestrando ou doutorando com prática profissional). A forma de contratação nos Sistema UAB ainda é precarizada, por bolsas, e o trabalho na EaD não conta para estágio probatório nem como carga horária para os docentes que nela atuam. Outros problemas como número insuficiente de encontros presenciais ou o próprio tempo destes são questionados por docentes. Mas vejamos… mercantilização da educação não nasceu com a descoberta do computador e internet. Os ataques à universidade pública não datam de agora e pouco se fala em fechar cursos de graduação presencial ruins. Há cursos noturnos que não tem pesquisa, extensão e até o ensino é ruim, inclusive em universidades públicas, mas por serem presenciais a pressão para fecharem as portas não é tanta. Um peso e duas medidas?

4.                  Fala merda não, ôxi, tem que garantir é campus pra todo mundo estudar!

Depende. Garantir campus para a população estudar por que ELA quer ou por que VOCÊ do alto de seus conhecimentos adquiridos com os imortais acadêmicos acha que deva ser assim? A construção de um campus universitário gera movimentação de pessoas, serviços, mercadorias (portanto valores) e um consequente aumento no curso de vida da região. Nem toda localidade quer ver o aumento do número de circulação de automóveis, por exemplo, em sua cidade. O discurso de “tem que garantir o campus lá pra ele estudar” tem duas faces que não costumamos observar. A primeira leitura é automática e subjetiva do que é apresentado, ou seja, deduzimos que está se falando de democratização da educação. A segunda, menos comum, tem a ver com algo simbólico, de modo que é mais difícil identificar, pois relaciona-se com um discurso aparentemente revolucionário mas que tem em sua constituição de fundo a manutenção de status quo via jargão, palavra de ordem ou outra artimanha que se camufle de preocupação com o social. Temos que ler as entrelinhas de quem apresenta esse discurso e qual a prática que realiza para democratizar a educação, pela construção de campus universitários ou outras mais importantes.

 

5.                  Mas véi, meus professores são todos contra a EaD!

O que é um(a) docente? O que é a sua função? Para quê ele existe? Como se constitui num espaço de conflitos e disputas como a universidade? Ora, antes de tudo o professor é um facilitador do processo de ensino/aprendizagem. Ele não é detentor do poder e tampouco você deve aceitar ser educado por difusão, numa educação bancária que por não ter relação dialética entre os(as) participantes não pode ter outro produto senão a reprodução das relações sociais. A função do(a) docente é provocar reflexões, dúvidas, e não fechá-las. Se um docente pergunta qual era a orientação do primeiro código de ética do Serviço Social (mesmo que a profissão não tivesse configurada dessa forma) e uma aluna responde que era o de vocação, de assistencialismo, não é tarefa do docente fechar o debate e castrar outras possibilidades de construção e sim perguntar se alguém na turma discorda, se tem outra opinião, se pode acrescentar algo. Não estou aqui defendendo ficar em cima do muro, a estratégia pós-moderna de tomar pedra dos dois lados por não se posicionar, um engodo que só tem colaborado com o pensamento conservador que infelizmente avança em nossa sociedade. Falo, isto sim, do docente descer de seu pedestal e permitir outros tipos de debates, que estimulem a turma como um todo e não deixe as falas polarizadas entre o militante da UNE, o da ANEL, o ecochato e o direitista que só quer pegar o diploma e sair fora. Perdão pelos estereótipos mas foram necessários nesse momento. E sem essa de que na modalidade presencial todo mundo participa da aula e não tem ninguém no Facebook, deixemos de nos enganar! Docente tem que exercer sua autonomia, mas sobretudo perceber a autonomia do estudante, como na EaD. Docente tem que ser revolucionário na prática: chamar usuário de política social para construir o programa da disciplina, discutir coletivamente processo de avaliação do estudante e do curso, trazer debates atuais da ABEPSS, CFESS e ENESSO e não se prender somente à bibliografias que se repetem ano após ano. Professor(a) que acha a ementa de uma disciplina ruim mas diz que nada pode fazer porque é norma do departamento, por favor, que não venha falar de revolução, de superação do capitalismo, se mesmo as tarefas mais básicas da burocracia pautam a sua ação e lhe deixam esbanjando fúria na Bastilha. Quem é o professor que lhe aconselha: o revolucionário na teoria e na prática ou o burocrático com máscara de Marx?

 

6.                  EAD: um termo em extinção!

Com o tempo, não vamos mais falar em EaD ou modalidade presencial, pois estarão integradas em uma só coisa, de modo que voltaremos a debater qualidade da educação, como deve ser. A distância não tem somente a conotação física, mas muitas outras esferas. Michael Moore fala da distância transacional, que é justamente um avanço sobre essa visão simplista de entender a distância como uma separação física entre pessoas. 50 pessoas podem estar numa sala de aula e não aprender nada da aula, pelo fato do professor ser ruim. 50 pessoas podem estar no Moodle, um Ambiente Virtual de Aprendizagem, e aprender por várias ferramentas distintas melhor do que estudantes da modalidade presencial, tudo isso sem excluir a possibilidade de encontro presencial. O problema é que há professores tão ruins que só tem matrículas em suas disciplinas por serem os únicos a ministrarem aquela matéria e, trabalhando com o Moodle, poderiam ser mais facilmente fiscalizados, não no sentido de punir mas de melhorar seu rendimento. As TICs permitem isso e com a utilização de AVAs como o Moodle na educação presencial, docentes estão ficando sem alternativa. A aproximação da modalidade presencial com a modalidade a distância caminha para algo que não é a educação semi-presencial, ou híbrida, ou o B-Learning (Blended Learning), mas para um conceito ainda não definido, que começa a se revelar e retira do(a) docente o centro do processo de ensino/aprendizagem, causando algum desconforto.

 

7.                  A cabeça fala de onde os pés pisam!

Deixei para me apresentar por último, justamente para que a leitura desse texto não fosse enviesada ou que eu pudesse conter parte dos juízos de valor. Formei em Pedagogia na UnB em 2008 e atualmente faço mestrado em educação e graduação em Serviço Social pela mesma universidade. Fui coordenador de Comunicação da ExNEPe (Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia), do Centro Acadêmico e do DCE da UnB à época da queda de Timothy Mulhollan, o reitor fanfarrão (2008). Também participei do início do MPL no DF e nunca fui filiado À nenhum partido, até 03/04/2013 quando me filiei ao PSOL, partido que já acompanhava desde 2005 e com o qual participei de ocupações de terra, de reitoria, formação política etc. Não votei no PT por achar que é um partido que se integrou à ordem burguesa e esqueceu a luta dos trabalhadores, mas longe de mim achar que a base do PT (militantes, sindicalistas, líderes comunitários) são bandidos como José Dirceu e outros. Quando militante do ME, sempre fui contra a EaD. Participei de muitos seminários, congressos estudantis, debates em aulas, sempre defendendo o posicionamento de que EaD era uma forma de privatização da educação e mercantilização das relações trabalhistas. Hoje tenho muito mais críticas à EaD, mas com mais fundamento e sem a retórica vazia de um estranhamento por não conhecer a estrutura da modalidade de perto. O que quero dizer é que me permiti a quebra de um paradigma, ou vários deles. Talvez o maior deles foi riscar da cartilha do militante a seguinte máxima: “socialismo e EaD são inversamente proporcionais”. Foi a participação enquanto Professor Tutor na UAB, nos polos de Águas Lindas de Goiás, Alexânia e Cidade de Goiás, algumas vezes lecionando para a mesma turma em semestres distintos, que pude ver o crescimento dos(as) alunos(as) e constatar que em nada deviam aos que estavam se formando na modalidade presencial. E não é formação aligeirada, uma vez que o curso EaD de Pedagogia tem duração de mais de um ano do que o curso presencial, com as mesmas disciplinas e respeitando os mesmos prazos de calendário acadêmico para ambas modalidades.

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

Albert Einstein

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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2 respostas para Uma outra Educação a Distância é possível… e necessária!

  1. Marcelo Valle disse:

    Macaco burro
    estou na sua cola
    vou te pegar
    preto filho da puta

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  2. Marcelo Valle disse:

    réptil ignorante
    escola para macacos?
    teu lugar é no tronco
    estou com a mira boa
    meu dedo esta coçando
    sei bem onde é a casa dos seus pais
    irei estuprar e matar a puta da sua mãe
    depois será a sua vez
    eu poderia ter sido alguém na vida
    mas tive uma missão
    ateus não irão conhecer o seu criador

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