UnB e a privatização escancarada do RU

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Tudo bem que o Reitor da UnB, Prof. Ivan Camargo, nunca teve vergonha na cara de apresentar seu projeto privatista que vem destruindo a universidade de forma exponencial a cada ano. Mesmo com a chegada das cotas sociais, é impressionante como a atual gestão da UnB conseguiu elitizar ainda mais a instituição. Trabalhando na UnB por 9 anos percebi bem como esse processo ocorreu.

A última dos liberais é a privatização, em larga escala, do RU, o Restaurante Universitário. A compra de refeições para apenas ser distribuída nos refeitórios já é uma prática antiga, que esteve presente na gestão do ex-reitor José Geraldo de Souza Júnior. Tempos antes, em 2004, na gestão do ex-reitor Lauro Morhy, mudou a configuração da natureza administrativa dos funcionários do RU, que deixou de ter a maior parte desses trabalhadores como sendo do quadro da FUB, portanto concursados. Os dados que informam essa mudança estão no Anuário Estatístico UnB de 2004, disponível no site do DPO (Decanato de Planejamento e Orçamento).

Desde a primeira gestão de Lauro Morhy (1997-2001), os funcionários foram substituídos, pouco a pouco, por terceirizados, chegando a representar a maior parte do RU no final do segundo mandato. Isso foi uma das ações que minou de forma substancial a greve dos servidores, principalmente quando a URP, gratificação do salário dos técnicos e docentes que corresponde a 26,05% do vencimento básico, estava em pauta. Assim, é em 2004, com a latente privatização da mão-de-obra do restaurante, que é lançado o embrião do que vem a ocorrer a partir da próxima segunda-feira, dia 14/04/2014: a venda de refeições a R$ 21,58 o quilograma!

Ao lançar o post acima em seu perfil no Facebook, vários alunos da UnB questionaram o ocorrido, reclamando da decisão que ninguém sabe onde foi tomada. Caso queira acompanhar a repercussão da mensagem do RU, basta clicar no link abaixo:

https://www.facebook.com/pages/Restaurante-Universit%C3%A1rio-Unb/643873832315032?hc_location=timeline

Ao responder o questionamento de um dos estudantes que reclamou do “serviço” prestado, a empresa que administra o RU disse que

Esse é um serviço novo que não será subsidiado pela UnB, e não interferirá nas filas, tendo em vista que estamos aproveitando para esse fim um espaço que há muito tempo estava desocupado. No passado, o mezanino já abrigou um restaurante a la carte.

Quando entrei na UnB, em 2003, lembro que existia um restaurante a la carte. Lembro também, mesmo que não seja justificativa para o espaço do RU, que ele tinha preço muito mais acessível do que a atual empresa cobra hoje e a UnB tinha 1/3 a menos do total de estudantes que tem em 2014, considerando somente o campus Darcy Ribeiro. E a empresa parece preparar o público para a notícia 2 dias antes, ao anunciar num post de 9 de abril, também em sua página no Facebook, o tempo médio de espera nas filas. Para a empresa, já que não se usa o mezanino até agora para o público em geral, a solução capitalista encontrada para lucrar mais foi abrí-lo e vender refeições pela bagatela de R$ 21,58, uma ninharia perto do aperto que passam alunos de baixa renda que chegam a passar fome em finais de semana que não tem o apoio do RU para comer.

Diante disso, algumas perguntas que a Reitoria deveria responder:

1- Se o RU é um prédio construído com verba pública, por qual motivo os usuários devem ceder o terceiro andar para que se venda refeições enquanto outros esperam na fila? E olha que estou sendo bastante reformista de nem questionar o fato de restaurante privado na universidade, mas “apenas” questionando o espaço em que isso é feito.

2- Se um dos objetivos da universidade é promover o humanismo, conforme consta no seu Estatuto que está disponível no site, como isso pode ser feito promovendo uma segregação de espaços no RU entre quem pode pagar e quem comerá a comida que volta e meia os estudantes publicam fotos de lesmas nojentas nas guarnições e saladas?

3- Por qual motivo no mesmo restaurante universitário teremos refeitórios com usuários comendo (sic) bife a cavalo, supremo de frango, panqueca de soja com ricota e espinafre, macarrão ao sugo, saladas verdes variadas, tábua de frios, pudim de leite e, em outros refeitórios teremos filas para comer Silveirinha?

4- Por qual motivo no mesmo restaurante universitário, pertencente à UnB (ou pelo menos achamos que assim o seja), temos um (sic) cardápio variado e sabor requintado e, para os mortais, o prato do dia?

5- Por qual motivo o restaurante universitário, conhecido ponto de encontro dos estudantes da UnB, que agrega todas as classes, cores e pensamentos, quer criar um espaço de exceção, atingível pelo poder econômico? Quem ganha com isso é quem tem dinheiro para comer nesse espaço e a empresa ou os estudantes que não podem pagar pelo serviço e esperarão as migalhas desse manjar?

6- Por qual motivo a empresa que administra o RU quer se aproveitar, de forma oportunista, de uma obra já construída para atender à comunidade universitária, bem como a comunidade externa, como sempre o foi, para aumentar sua frente de capital e ter lucro para além do firmado em contrato? O que mais será vendido no RU? Protetor solar? Havaianas? Ingressos para a Copa da Corrupção? Qual o limite do olhar capitalista do dono da empresa e da negligência, ou seria conivência, da Reitoria?

7- Se uma empresa quer ter lucro, pode ela se locupletar de uma concessão para agir ao arrepio da lei acreditando que a única coisa que se deve olhar nessa questão é o subsídio direto do valor da alimentação pela UnB? A energia gasta na refrigeração das carnes, é para o cupim dos seres humanos ou para a Friboi dos deuses? Quem fiscalizará o alface com verme que irá para a “Geral” e o que irá para a “Cadeira Cativa”? Quando se abrir uma torneira para lavar um frango no RU, é o frango dos pobres ou dos ricos? Um Centro Acadêmico quando faz festa no Centro Comunitário paga taxa de limpeza. Uma empresa Júnior paga 5% de FAI (Fundo de Apoio Institucional). A empresa paga algo para a UnB? Quanto? Cadê a transparência Reitoria? Coitado de quem acredita que usar o RU é só uma questão de subsídio de alimento.

8- O contrato de permissão para exploração (literalmente) do RU (e de nós) permite a utilização do mezanino e, caso permita, instrui de que forma o espaço deve ser utilizado? Quem fiscaliza essa farra do RU com a estrutura paga por nossos impostos para enriquecer sabe-se lá quem? Já foi investigado se os acionistas da empresa tem alguma relação de parentesco com servidores da FUB, inclusive da Reitoria? Está aí uma boa pesquisa de jornalismo investigativo para os jornais da cidade.

9- Pode a Reitoria ter feito uma concessão para que a empresa servisse alimentações utilizando o RU e, aproveitando-se de “brecha” em contrato, a empresa começasse a usar o espaço de forma indevida?

10- Só por curiosidade de saber “quem está no comando”, quem administra o perfil do RU no Facebook é a UnB ou a empresa privada? Quem anuncia o preço, cardápio, tempo nas filas, e como é gerido o perfil, passa por algum controle da UnB ou eles podem fazer o que quiser usando o nome da universidade? Será que no pacote da concessão a empresa comprou a ética da Reitoria junto?

Para mim a atual administração do RU comete o mesmo crime que cometeu Timothy Mulholland ao ser DEPOSTO pelo Movimento Estudantil da UnB em 2008. Ele morava num apartamento funcional, com fins de representação da imagem institucional que um reitor exige. Nossa, que pompa! Porém, a conta de água, luz e mesmo os móveis utilizados no apartamento de Timothy não eram somente para fins de representação, mas para tomar um banho, escovar os dentes, ver um filme, tirar uma soneca (sim, tinha cama no apartamento, não se sabe para quê se é representação institucional!) e outras coisas. Tudo bem a empresa ter lucro, mas que construa seu restaurante e não utilize o espaço e o dinheiro público para isso, de forma descarada, separando os que podem ou não pagar.

Com uma Reitoria que trabalha contra os estudantes de baixa renda, um DCE da Aliança pela Lambança que aprova qualquer iniciativa de venda da UnB e uma ADUnB não menos porca tendo um moleque birrento de presidente que dá socos na mesa em assembleias de docentes, faz sentido a atual empresa agir como bem entender. Resta aos atingidos por essas medidas agirem para impedir, na luta, na ação direta, na ocupação do RU, os desmandos de quem autoriza – ou neglicencia seu papel de lutar contra autoritarismos, como o DCE – e devolver o RU à comunidade acadêmica e à sociedade. A nova roupagem de desvio de verba das fundações privadas está colocada de forma bem caracterizada no RU. E que o reitor Ivan Camargo tenha o mínimo de vergonha na cara e abra a garagem de sua casa para a empresa montar o seu self-service por lá.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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