O SINDOURADO e a luta das professoras do DF por direitos trabalhistas

Agnelo foi ao Sinpro-DF com os senadores eleitos, Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque, e expôs seus planos para a Educação

Agnelo, logo depois de eleito, vai ao SINPRO com Rollemberg e Cristovam. Os senadores abandonaram Agnelo, mas o SINPRO, com o dinheiro das professoras, continuou com ele até o fim. E ainda continua! Foto: Jornal Coletivo.

Pra começar: o SINPRO coletivo versus o SINDOURADO personalista

 

Falar de sindicalismo é traçar as lutas trabalhistas vividas não só no Brasil mas no mundo. O próprio Dia do Trabalho é uma homenagem à um dia de luta, embora hoje seja relembrado pelas centrais sindicais governistas através de sorteio de brindes e shows, ambos superfaturados. O espetáculo do pão e circo moderno conta com a ajuda da farra de ministérios, como foi o caso de Paulinho da Força Sindical e o Ministério do Trabalho, reduto histórico do PDT nos governos do PT. A CUT e CTB, outras centrais sindicais pra inglês ver, não ficam atrás e por vezes traem os direitos das trabalhadoras para não atacar o chamado bem maior: a imagem de um governo que, segundo eles, é progressista.

O sindicato das professoras do DF, como extensão do PT, não poderia ser diferente. Porém, o esvaziamento de formação política do SINPRO é tão grande que este ganhou uma característica peculiar e ainda mais cruel: o personalismo de Washington Dourado, ou WD, para simplificar. WD é professor, deve ter seus posicionamentos políticos respeitados independentes de quais forem e gozar de plena autonomia para prover seus meios de comunicação de forma pessoal ou terceirizada. Até aqui problema algum – vivemos num país livre! O problema é a forma como isso é usado. Qualquer professora em todo o Brasil quando quer saber algo sobre vagas para concurso, indicativos de greve, sinalização de não cumprimento de acordo trabalhista por parte do governo e outras demandas vai ao site de seu sindicato. Aliás, em quase todo o Brasil: no Distrito Federal, as professoras procuram pelos informes de WD na internet.

Ora, isso por si só é sintomático de algo muito maior, que é demonstração da completa incompetência do SINPRO de gerir sua comunicação de forma mais eficaz e eficiente que um de seus diretores. Se o próprio WD é diretor do SINPRO, por qual motivo as informações de interesse das professoras saem primeiro em seu blog e depois nos meios de comunicação do SINPRO? Na hora de subir paras as comissões de negociação com o governo e posar de papagaio de pirata de bandidos como Agnelo aí é o sindicalista WD. Entretanto, quando é para socializar informações através do SINPRO, aí ele vira o professor WD e publica em suas redes sociais, controlando com isso uma legião de seguidoras ávidas por informações que deveriam ser priorizadas para divulgação pelo site do sindicato. Corrijam-me se eu estiver enganado, mas acho que o SINPRO deveria ser o principal meio de comunicação das professoras. Até onde é ético que um diretor do SINPRO escolha o momento de ser um representante do sindicato e o momento de ser um professor “avulso” (há 13 anos sei lá!), acumulando com isso capital político para si ao invés de fortalecer um instrumento de luta da categoria? Pensemos nisso!

Sindicalismo e partidos políticos: os analfabetos políticos criaram conta no Facebook

Quando passei no Mestrado em Educação em 2011 na UnB lembro que recebi muitas mensagens SMS de felicitações – à época não havia o aplicativo whats app. Uma delas, de um amigo da USP, me recordo até hoje. Dizia assim: “Chakrinha, agora que você passou no Mestrado, você vai entrar na ExNEPe de novo?”. Respondi objetivamente: claro que não! A ExNEPe é a Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia e naquela época eu ainda não era filiado ao PSOL e  militava com e contra colegas de partidos institucionalizados (como o PSDB, PT, PC do B, PSOL, PSTU, PCB) ou não (como o MEPR, PCR e até a Juventude Monárquica do Rio de Janeiro na figura de um único, redundante e pleonástico representante). Militei no Movimento Estudantil durante a primeira graduação (2003 a 2008) e fui Coordenador da ExNEPe de 2007 a 2008. Lembro aqui da concepção de partido político de Lênin, que é algo muito maior ao que se conhece no senso comum – disputa de eleição. Eu já tinha acabado a graduação e achava, como acho, que era hora de outras pessoas assumirem o Movimento Estudantil de Pedagogia, tanto a nível nacional como no Centro Acadêmico de Pedagogia e no Diretório Central de Estudantes da UnB. Uma coisa é ajudar na organização de alguma atividade e outra é estar sempre vinculado como membro de uma entidade, algo comum na UNE e no sindicalismo, como no SINDOURADO. Também na UnB, trabalhando nove anos como técnico-administrativo, participei de todas as greves e, novamente, não consigo enxergar como que os partidos políticos podem ter sido algum problema.

Analisando a fundo, se fosse proibido a participação de partidos políticos em sindicatos, movimento estudantil e outras organizações coletivas, aí sim estaríamos pior do que hoje. Para quem não lembra na época da ditadura militar não havia partido nos sindicatos nem em lugar nenhum. Qual avanço as trabalhadoras tiveram na ditadura? Nenhum. Mas você pode pensar que foi por causa da ditadura, que é algo que até coxinhas como Aécio Never não querem ser vinculados, e não por causa da inexistência de partidos. Errado novamente! No período do populismo, da Era Vargas, da política de Café com Leite, em todos eles não há pesquisadores que afirmam que a luta trabalhista regrediu por causa da atuação dos partidos políticos nos sindicatos. Ao contrário: a sociedade sempre se organizou através de instrumentos coletivos e os partidos estão entre os mais importantes. A luta pela extinção do INAMPS, das caixas de pensão e a garantia de um SUS que atenda a todos independentemente de contribuírem ou não com a previdência é uma conquista que foi feita na Constituinte de 1988 utilizando, vejam só, o PT como um dos interlocutores da sociedade.

Você não precisa ter participado da Constituinte para saber disso. É fato que vários livros ou pessoas podem comprovar. O PT, com apenas 8 anos, teve uma presença marcante na conquista de muitos direitos trabalhistas que, posteriormente, foram completamente destruídos por Lula e Dilma, começando pela Contra-Reforma da Previdência em 2003. Portanto, há colegas que ainda acreditam no PT e devem ser respeitadas por isso, por mais que o partido tenha entrado num caminho sem volta. O SINDOURADO sabe muito bem disso e por mais que saia em fotos com parlamentares, tenta passar a imagem de que são independentes, técnicos, imparciais, que agem visando unicamente o interesse das professoras. De outro lado, está a oposição ao SINDOURADO, que infelizmente não se apropria das redes sociais e deixa para se articular enquanto grupo nas vésperas de eleição. Por ficar a reboque das ações de compadrio governistas do SINDOURADO e não fazer a formação política nas escolas em que atua, seja na hora do café ou nas reuniões de coordenação, pra ser bem básico, a oposição aparece mais como partido político e o SINDOURADO como opção de voto, nem que seja o menos pior, discurso que o PT, sem projeto pra nada, aperfeiçoou com o terrorismo a qualquer um que ameace lhe tomar a chave do cofre.

Essa contextualização sobre partidos e sindicato é importante para que não se pense que a saída para crises, por mais tempo que durem, seja a desfiliação ou a culpabilização de partidos e a generalização destes como se todos tivessem a mesma ideologia. A partir daqui podemos compreender o próximo ponto, que é a atuação do SINDOURADO no governo Rollemberg.

A nova estratégia do SINDOURADO: esquecer Agnelo e mirar em Rollemberg

 

Nenhum sindicato quer sua imagem atrelada ao de um governo, mesmo que faça campanha descaradamente para ele utilizando a estrutura milionária de um dos maiores sindicatos do Centro-Oeste. Durante os quatro anos da gestão corrupta de Agnelo, o SINDOURADO, seja a gestão anterior ou a atual, trataram de agir como um legítimo moleque de recados do governo petista. É notório que vários diretores do SINDOURADO indicaram familiares e amigos para cargos comissionados na imensa estrutura criada pelo PT no GDF para abarcar os dezesseis partidos da coligação de 2010. Com um trem da alegria sem fim, a independência do sindicato ficou seriamente prejudicada, como foi inclusive admitida por diretores, incluindo o próprio WD, presidente da entidade, como a mídia burguesa o anuncia ainda que não exista esse cargo no sindicato.

Após a tão esperada saída de Agnelo, o que mais se leu nas redes sociais das professoras são duas cobranças:

  • Exigir do novo governador, Rodrigo Rollemberg (PSB), o recebimento imediato dos direitos trabalhistas não pagos por Agnelo; e
  • Ir à Justiça para que esta julgue as sanções cabíveis (incluindo prisão) de Agnelo por não ter realizado os pagamentos às professoras.

O primeiro ponto o SINDOURADO irá cumprir, até mesmo porque a estratégia política é ótima: faz-se um ato dia 06/01/2015, antes mesmo do prazo dado inicialmente por Rollemberg para o pagamento da dívida de Agnelo. Desse ato só podem sair duas conseqüências:

  1. Se Rollemberg pagar a dívida de Agnelo, o SINDOURADO posa pra foto (mais uma), desvia um pouco a lembrança do governo que apoiaram e diz que “só a luta e a mobilização constante das professoras são capazes de garantir nossos direitos”.
  2. Se Rollemberg não pagar os direitos das professoras dia 08/01/2015, o SINDOURADO convoca outro ato e diminui o desgaste que vem sofrendo constantemente na web, quase um cyberbullying, afirmando que já está na luta desde os primeiros dias do ano.

A tendência é que ocorra a primeira opção e Rollemberg pague as professoras, o que significa salvar a pele do SINDOURADO e de Agnelo. Contudo, engana-se quem pensa que o sindicato irá mover uma palha sequer para que Agnelo pague por seus crimes. Isso é completamente impossível! Jogar Agnelo na cadeia é se acusar de estúpido ou, pior, de corrupto. Rollermberg diz que Agnelo deixou 64 mil reais em caixa. O SINDOURADO diz que Agnelo deixou mais de 1 bilhão de reais, fora os recursos do mês. É vexatório para o SINDOURADO querer bancar o herói a essa hora do jogo e de forma tão mesquinha. Afinal: se Agnelo deixou 1 bilhão em caixa, por qual motivo professoras esperam pagamento há dias? Por quê Agnelo, ele próprio, não pagou o que era dívida de seu governo? É claro que com 64 mil reais ou 1 bilhão de reais isso tudo é uma farsa, pois discute-se apenas uma dimensão do problema, que é o pagamento das professoras, deixando a outra vertente de lado, que é a resposanbilização criminal de Agnelo por improbidade administrativa.

O SINDOURADO utilizou a verba de contribuição sindical das professoras para tentar a qualquer custo manter o trem da alegria petista e para isso nosso dinheiro foi para o ralo. Petistas como Rejane Pitanga, Wasny de Roure, Magela, Agnelo e Dilma ganharam destaque com depoimento e foto de eventos que participaram exclusivamente com intuito eleitoreiro. O resultado veio nas urnas e foi a derrocada do PT que diminuiu a bancada na CLDF de seis para quatro distritais. Na Câmara Federal perdeu um deputado, sendo que Kokay foi reeleita com a ajuda dos votos de legenda do pastor fundamentalista Ronaldo Fonseca. Magela ficou atrás até do fantasma Gim que só conseguiu ser senador porque era segundo suplente de Roriz e assumiu com o escândalo da bezerra de ouro em 2007. Agnelo ficou atrás até mesmo de Frejat que assumiu a vaga de Arruda no final da campanha e Dilma tomou uma lavada no primeiro e segundo turno nas urnas do DF. A publicação Quadro Negro do SINDOURADO virou Quadro 13, mas as edições de número 188, 189 e 190, correspondentes aos meses setembro, outubro e novembro e que fazem campanha deliberada para a companheirada e balanço do governo Dilma sumiram do site (veja em: http://www.sinprodf.org.br/quadro-negro/ – acesso em 05 jan. 2015). Alguém sabe dizer por qual motivo isso aconteceu?

Pois é professoras, nem com todo nosso dinheiro gasto o PT conseguiu se recompor da lambança que foi Agnelo como governador. Consequentemente, o maior desejo do SINDOURADO é esquecer as fotos e declarações que deram de que o governo Agnelo avançou muito no DF, sobretudo em educação. O SINDOURADO e o governo do PT no GDF se misturam, então não há como eles solicitarem a prisão ou outra medida mais dura do ex-governador. É como se eles falassem pra eles mesmos que tem que ir juntos dividir cela com Agnelo, porque o apoiaram até na greve chapa branca que agora fazem questão de anunciar. Com grande parte do orçamento familiar vinculado à Agnelo através dos cargos comissionados entregues aos “amigos do SINDOURADO”, ai do sindicato se ousasse fazer algo contra o governo. A relação nunca foi entre governo e representantes das professoras mas entre patrão e empregados. Foi assim que o Agnelo aproveitou para deitar e rolar em quatro anos de mandato. Seria mais fácil recuperarem 100% do dinheiro desviado da operação Lava-Jato do que o SINDOURADO mover uma ação judicial maior que o teatro que fizeram em dezembro de 2014.

Rollemberg, por sua vez, teve financiamento de campanha tão ou mais comprometido que Agnelo e Arruda. Seus aliados na CLDF, como Celina Leão (PDT), não farão absolutamente nada para que as professoras passem a perceber maiores remunerações ou tenham melhores condições de trabalho. Hélio Doyle, braço direito de Rollemberg, é especialista em plantar crises pra conter gastos, menos o seu salário, claro. Há quem se engane com o novo governo que de socialista tem apenas o nome na sigla e as chamadas no Correio Braziliense, mas a situação que nos aguarda é caótica e o SINDOURADO vai querer se mostrar como o salvador da pátria para perpetuar as mesmas figurinhas na Direção. Então professora, reconheça que parte dessa grande piada de péssimo gosto que é a negação de nosso pagamento advém do seu voto no “colega de muitos anos”, na viagem pra Caldas Novas com o tapinha nas costas, no transporte de eleitoras, nas urnas sem fiscalização e em todo o tipo de voto de cabresto que você participou para dizer que a “sua chapa” ganhou o sindicato. Bem, está ai o resultado. Se acha que porque mudou o governo a próxima chapa do SINDOURADO, que serão praticamente as mesmas pessoas, irá lhe representar bem, porque dialoga, porque não são os “comunistas doidos”, por favor, ao menos da próxima vez assuma a sua parte nessa dívida ao perceber que há algum tempo não temos SINPRO, mas sim um SINDOURADO. Se era diálogo o que queria, o SINDOURADO conversou muito bem com Agnelo e agora quer te fazer esquecer de que foi o cão de guarda do pior governo que o DF já teve. E olha que pra superar Roriz, Cristovam, Arruda e Rosso tem que se esforçar muito, mas Agnelo e SINDOURADO, juntos, conseguiram.

*Em respeito à questão de gênero e à luta das professoras por visibilidade em uma sociedade patriarcal, o texto foi todo generalizado no feminino por se tratar de uma categoria composta em sua maioria por mulheres.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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5 respostas para O SINDOURADO e a luta das professoras do DF por direitos trabalhistas

  1. Francisco Kito Oliveira disse:

    Perfeito, perfeito, perfeito. Parabéns.

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  2. Roger disse:

    As edições do Quadro Negro citadas no seu texto não estão disponíveis por causa de decisão do TSE, de tão descarado que estava. Na época, só mandaram um email, que deve ter passado despercebido pela maioria dos professores. Segue link: http://www.sinprodf.org.br/decisao-do-tribunal-superior-eleitoral/

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  3. Luan do Carmo disse:

    Excelente texto. Por meio dele foi possível contextualizar pontas soltas desse emaranhado político que diz respeito a classe de professores. Desde que cheguei ao DF (jul/14) que tento compreender alguns deslizes e omissões do sindicato (“s” minúsculo) e os mandos e desmandos do governo anterior. Seu texto foi decisivo para compreender os bastidores da atualidade.

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  4. Roberta Fernandes disse:

    Kkkkk…sindourado barrou tudo.
    Texto muito bom, porém da análise não vejo nenhuma solução.

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