O assalto institucionalizado do BRB com o aval do Ministério Público

Para entender o sistema financeiro: a historinha da permuta de Medeiros e Maria

Era uma vez um padeiro de 40 anos chamado Medeiros que trabalhava na Padaria Rollembelo, em Vicente Pires, da proprietária Maria. Medeiros recebe R$ 1.000,00 mensais de Maria. Em Janeiro de 2015 Maria disse que, por dificuldades financeiras deixadas pela administração anterior, iria atrasar o salário das funcionárias. Logo, Medeiros se viu desesperado, pois tinha contas a pagar. Maria, para “dobrar” as funcionárias”, fez a seguinte proposta: como o pão custava R$ 1,00, as funcionárias poderiam pegar seu salário em forma de 1.000 pães, ou seja, uma permuta, a partir do dia 15. As funcionárias reclamaram e aí Maria teve que “ceder”: abriu uma margem de 20% e elas puderam pegar 1.200 pães dividido em 10 parcelas.

O Sindicato das Funcionárias de Padarias Populistas, o SINDIPAPO, muito amigo da administração anterior do estabelecimento, disse que era melhor elas aceitarem a proposta pois era uma grande vitória e a luta continuava, inclusive parando a produção de pães no próximo mês caso Maria não cumprisse o acordo. Desse modo, o SINDIPAPO fez uma nota explicativa da questão salarial dizendo que foi uma conquista muito grande ter aumentado o valor do salário em 200 pães e que a luta continuava porque a entidade queria uma permuta ainda maior, para 1.500 pães, por danos morais, além da redução do aumento dos 200 pães de 10 para “apenas” 5 parcelas. Assim, das pessoas que trabalhavam na Padaria Rollembelo, algumas ficaram revoltadas e se desfiliaram do SINDIPAPO enquanto outras aceitaram dizendo que Maria pegou uma padaria abandonada pela gestão anterior e que deveriam ter paciência.

Nenhuma das duas situações levou as trabalhadoras a terem uma forma de sanar diretamente suas dívidas. Clemente, que era o gerente da padaria de Maria, disse que as funcionárias não deveriam fazer planos com seus pães. Uma semana depois os pães estragaram. O pagamento de férias, 13º salário e outros direitos trabalhistas foram negociados em troca de latas de salsicha, pacotes de biscoito e papel toalha, ao passo que o SINDIPAPO recusou e propôs trocar o papel toalha por papel higiênico. Outra ação do SINDIPAPO foi se negar a chamar uma assembléia das funcionárias, alegando que todo dia fariam uma paralisação em um setor diferente: segunda no forno, terça nos laticínios, quarta nos vinhos e assim por diante. Como ninguém vive somente de pão, salsicha e biscoito, as funcionárias foram obrigadas a pegar cada vez mais produtos na padaria onde trabalhavam para não passar fome, ao passo que Maria via seus lucros aumentarem de forma exorbitante com isso.

A maioria das funcionárias não percebiam mas a mais-valia de Maria era proveniente da força de trabalho delas, força essa que Maria não pagou, gerando um ciclo de auto sustentação financeira dessa exploração. O Ministério Público de Vicente Pires nada fez na situação e nisso as operárias em construção iam se tornando escravas por dívidas de Maria. Aliás… Eu já falei que as dívidas continuaram?

Já diria Lênin: assaltar um banco não é nada perto de fundar um banco.

Ouvimos histórias de assalto a banco quase que diariamente mas falamos pouco de assalto DO banco! O assalto, algo semelhante ao roubo, é quando se mantém contato com a vítima. Nessa quarta quase fui vítima de um assalto quando recebi ligação do BRB e a funcionária gerundista me disse assim:

– Senhor Rafael Ayan, estamos fazendo uma linha de crédito especial para esse período de crise e os juros baixaram de 2,65% para 1,95%. Se o senhor quiser estar passando aqui conosco podemos estar calculando um melhor plano que possa estar satisfazendo suas necessidades. O BRB agradece, qualquer dúvida o senhor pode estar entrando em contato e boa tarde.

Vejam só pessoal, que interessante! O BRB que por coincidência tem como mandatário Rodrigo Rollemberg (PSB), governador do DF, tem dinheiro para especular mas não para o próprio GDF fazer um empréstimo e pagar as professoras. As professoras do DF estão com as contas atrasadas porque nosso chefe, o governador, não nos paga. Aí o banco do chefe, o BRB, que tem o cadastro de todo o funcionalismo público do DF, sabendo de nossa situação financeira, te liga e te oferece uma linha de crédito especial, baixando os juros.

Cerca de 75% do capital que circula em todo o mundo é especulativo, ou seja, ele não “existe” de forma concreta mas participa da maior e mais estruturada forma de crime organizado no mundo, a economia global. Por qual motivo as professoras que devem pegar empréstimo no BRB, um banco estatal e de política orientada pelo GDF, para que este recurso substitua o salário que deveria ter sido pago pelo próprio governo, gerando lucros em operações de crédito a quem, legalmente, já deveria ter pago suas funcionárias? Depois do Caixa 1 do fundo partidário e do Caixa 2 de empresas envolvidas nos mesmos escândalos do governo anterior e que financiaram a campanha do PSB ao GDF, chegou a hora do Caixa 3 de Rollemberg: forçar a inadimplência do funcionalismo público e gerar lucros para o BRB, uma forma moderna e criminosa de arrecadar recursos e que conta com o aval do MPDFT, o arauto da moralidade, da ética e da justiça. Será?

 

O papel do Ministério Privado das Empresas e Territórios

 Todo o assalto cometido pelo BRB com o aval de seu chefe, Rodrigo Rollemberg, poderia ter sido contestado pela justiça, mas essa ficou calada. Só falta Rollemberg nos pagar com empréstimos feitos com nosso próprio dinheiro e a justiça continua como se nada tivesse acontecido. O mais interessante é que todas, absolutamente todas as vezes que as professoras fazem greve, o Ministério Público se coloca contra o movimento paredista. Ninguém defende tão bem os patrões quanto o Ministério Público, que parece Ministério Privado. Pergunte a qualquer professora, rodoviária, metroviária, profissional da saúde e outras categorias quantas foram as vezes que o MPDFT considerou nossas greves (sic) abusivas e, de outro lado, fica refém dos infindáveis e demorados relatórios do Tribunal de Contas do DF, outro órgão sem transparência que ajuda o governo em suas falcatruas.

Dessa vez não foi diferente. Não há nenhuma ação do MPDFT para que Rollemberg cesse o Caixa 3 que vez fazendo com o dinheiro de direitos trabalhistas das servidoras públicas. Não foi movida ação para que essas operações de crédito inconstitucionais, seja poupança ou empréstimo com o dinheiro da desgraça alheia, seja cessada. O último absurdo de Rollemberg foi dividir a tabela salarial do funcionalismo do GDF e pagar por partes, como se tivesse essa prerrogativa. A confusão nas contas é tanta que daqui a pouco vai ter mês que vai ser “engolido” sem pagamento e aí o governo volta a pagar no quinto dia útil do mês, alegando regularização da situação deixada pelo governo anterior.

Sai a quadrilha do PT, entra a quadrilha do PSB e o MPDFT assiste de camarote os direitos trabalhistas serem violados da forma mais cruel possível.

Descapitalizar o BRB: saia o quanto antes e deixe o GDF se virar.

Uma das formas de revidarmos os ataques sofridos pelo governo é mexendo onde ele mais sente: na arrecadação. Para isso, estejamos preparados para as mentiras que o BRB vai contar para tentar nos manter vinculado à essa droga, mais ou menos como um traficante faz com um viciado em crack.

  • Portabilidade. Se o máximo que o GDF pode fazer pelas suas funcionárias é redução de juros e não o seu cancelamento, num banco que é de seu domínio e por responsabilidades que são do Estado não recebemos, então não há nada para fazer nessa instituição.
  • Conta Salário. Ao solicitar a portabilidade, você ficará apenas com a conta salário no BRB. Todo mês, quando o salário cai na conta do BRB, automaticamente é transferido para o banco de sua escolha. Se a funcionária disser que cai 2 dias depois é mentira e estou a disposição para provar isso.
  • É proibido o BRB cobrar taxas pela portabilidade. As funcionárias do BRB estão orientadas a fazer terrorismo e dizer que você perderá muitas vantagens ao solicitar a portabilidade. São bem treinadas, quase atrizes ao olhar nos seus olhos e querer te convencer que você vai pagar juros mais altos se sair do BRB. Na última tentativa, a atendente chamará a gerência que te dirá que vai cobrir a taxa de juros de qualquer banco para o empréstimo que você quer fazer. Não conseguindo, vai te mandar assinar um documento em que reconhece que para fazer a portabilidade o BRB cobra uma taxa de administração. Não aceite! Qualquer cobrança de taxa para portabilidade é proibido pelo Banco Central, que é o órgão que regula essas operações. Seja firme e faça o que deve ser feito. Você tem o direito de receber o salário na conta que quiser, por mais que o empregador, seja governo ou empresa privada, já tenha convênio com algum banco.
  • Não consegue se desligar de imediato do BRB. Essa é uma situação em que também me encontro, pois tenho um financiamento pelo BRB. Isso não impede de ter uma conta salário que continue a descontar consignações em folha e você receber por outro banco. Foi o que fiz. Uma coisa não tem nada a ver com outra e não deixe que a funcionária te convença do contrário. O seu vínculo com o BRB continuará sendo os empréstimos que pagará nos descontos que vem em seu salário, mas toda a sua movimentação de saque, transferência, débito em conta e outras será feita no banco que escolher.
  • As conseqüências da descapitalização do BRB. Alguém pode pensar que a descapitalização do BRB terá um fim lastimável que é um rombo maior na arrecadação do GDF. Pensemos o contrário então: com o BRB, o GDF arrecada mais e nos paga. É o que acontece agora? Claro que não! O BRB consegue praticar menores taxas de juros em algumas linhas de crédito sim, isso há de ser reconhecido. Porém, sempre foi um banco sem prestígio, utilizado em inúmeros esquemas de corrupção principalmente com Arruda (DEM), Agnelo (PT) e Roriz (PMDB). Com Rollemberg não achei que seria diferente, só não esperava que fosse tão cedo. O BRB é uma instituição financeira e como tem toda sua política estabelecida pelo GDF, por mais técnico que pareça nessa história, é um instrumento de controle financeiro do governo sobre suas funcionárias. Ao mudar de banco, fica muito mais difícil de Rollemberg e governos futuros nos usarem nesse jogo do capital especulativo, tendo que dourar a pílula com medidas menos tiranas e pensar duas vezes antes de nos emprestar a juros o que não nos pagou.
  • Sugestão: vá para o Banco do Brasil. Obviamente que não estou ganhando nada do Banco do Brasil para fazer propaganda, mas sem dúvida é de longe o banco que tem mais caixas eletrônicos e apresenta razoáveis taxas de juros em empréstimos para aquisição de automóveis ou imóveis, compras de material de construção, plano de previdência complementar e seguros. Além disso, o Banco do Brasil tem o melhor aplicativo de smartphone para gerenciamento financeiro, permitindo transferências, extratos, pagamento com código de barras e até recarga de celular. O aplicativo do BRB é tão ruim que prefiro nem comentar, fruto da política do banco do ineficiente investimento em tecnologia da informação. O ideal é que tivéssemos banco popular, gerido pelas trabalhadoras, ainda que uma instituição financeira demande decisões rápidas que devem interferir na estrutura de um banco contemporâneo. Não estamos mais na época de trocar pimenta por madeira. Porém, fazendo uma análise reformista por dentro do capitalismo, o mínimo que temos que fazer é retirar toda a nossa circulação de capital do BRB.

Diante do cenário de completo abandono por parte do MPDFT frente a esse assalto institucionalizado do BRB, o que nos resta é nos organizarmos coletivamente para um período de retirada de direitos como Rollemberg anunciou, informando que será difícil pagar os reajustes salariais que conseguimos nas últimas mobilizações. Uma das medidas passa pela descapitalização do BRB e essa deve ser uma ação não apenas das professoras mas do conjunto do funcionalismo público do DF. Portanto, temos a obrigação de conversarmos com nossos familiares e amigos que trabalham em outras áreas sobre esse assunto e, assim como o PT de Agnelo e o PSB de Rollemberg fez conosco, atingir o dragão em seu coração: o banco. A dica é essa: mantenha os seus empréstimos no BRB, faça a portabilidade para outro banco e organize-se cortando gastos para não se endividar novamente. Sei que esse último ponto é o mais difícil e parece a idiotice que o Secretário Júlio Gregório disse, mas é o único meio de nos desvincularmos do BRB de uma vez por todas.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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