O Boticário, gays e a evangelhosfera

Os Simpsons, Madonna e diversos artistas já utilizaram a cruz em performances ou para escárnio da religião/religioso. Os programas de humor na TV, no rádio, as charges, as tirinhas, o Charlie Hebdo, todos esses em algum momento falaram da cruz e a colocaram em espectros não religiosos – algumas vezes com protestos e outras não!

Dois assuntos que foram bastante debatidos nas redes sociais nos últimos dias: o comercial com casais homoafetivos do Boticário e a transexual que desfilou “crucificada” na 19ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo. Chama a atenção, nos dois casos, o ódio cada vez mais latente de intolerantes, grande parte religiosos, com homossexuais. As escolas não cumpriram – como ainda não cumprem – o seu papel de debater a diversidade sexual e acham que trabalhar cultura de paz é respeitar a todos. Contudo, nessa generalização de todos não cabem os gays, os praticantes de candomblé, os ateus, os agnósticos e outras minorias. É o “respeitar a maioria” com eufemismo de “respeitar a todos”. Isso significa que não há um horizonte próximo de respeito aos direitos humanos, que não dependem somente de legislação mas principalmente do tipo de educação que oferecemos em nossas escolas.

Seguindo a tendência das atuais e inclusivas agências de publicidade, O Boticário investiu em uma propaganda audaciosa para o Dia dos Namorados. Usando como fundo a música “toda forma de amor”, de Lulu Santos, o comercial mostra 3 casais, sendo um heterossexual e dois homoafetivos (um de mulheres e outro de homens). A reação dos que vivem de ódios, sobretudo neopentecostais, foi imediata e pode ser resumida nas palavras de Silas Malafaia: “querem atacar a estrutura básica da família, que é macho e fêmea, homem e mulher, por isso não comprem produtos do Boticário, eles que vão vender perfume pra gay”. Assim, segundo Malafaia e outros disseminadores do ódio como o pastor Marcos Feliciano, o boicote ao Boticário iria fazer com que a empresa recuasse e retirasse o comercial ou, no mínimo, impedir uma naturalização da aceitação de casais gays pela população. Não deu certo! Pior que isso: os fundamentalistas cavaram a própria cova, uma vez que o leque de empresas que apoiam a diversidade sexual é maior do que esperavam: Coca-Cola, Oreo e até as redes sociais como Youtube e Facebook, em que os pastores postam a raiva contra homossexuais, apoiam a causa LGBT. Não é preciso dizer que Malafaia, covarde e contraditório como é, não solicitou que os fiéis boicotassem as redes sociais, tampouco tirou o biscoito e refrigerante da boca das crianças de sua igreja.

O desfile de uma transexual apoiada em uma cruz na parada LGBT foi outro evento bastante comentado. Num dos comentários que li em sites de jornais, uma das pessoas falou que os participantes da Parada não acreditavam em Deus porque andavam seminus. Por certo a pessoa que disse isso deve julgar que quem desfila seminu no carnaval, anda de bicicleta de sunga, joga futebol sem camisa e de short curto, as atrizes das novelas, todas essas não passam de hereges, de ateus. A cruz tornou-se um símbolo religioso, vale dizer, principalmente na cultura ocidental e após a escrita da bíblia. Os Simpsons, Madonna e muitos artistas já utilizaram a cruz em performances ou para escárnio da religião/religioso. Os programas de humor na TV, no rádio, as charges, as tirinhas, todos esses espaços em algum momento falaram da cruz e a colocaram em espectros não religiosos – e sem protesto algum! Expressões populares como “fulano é minha cruz” ou “devo ter jogado pedra na cruz” ou ainda “enfrentei uma via-crucis danada pra chegar até aqui” são comuns no maior país católico do mundo. A Legião Urbana, uma das bandas preferidas pelas juventudes das igrejas, criou o personagem João de Santo Cristo e disse que a via-crucis virou circo. Onde estão os protestos? Fica evidente que se fosse um protesto de um católico ou evangélico crucificado com as mensagens “Os homossexuais querem matar nossa fé” não teria essa revolta por parte dos fundamentalistas. Viviany quis mostrar como transexuais são crucificadas diariamente. Não profanou a cruz em momento alguma e nem a imagem de Jesus Cristo. A propósito, Cristo, se vivesse hoje, ao comer com prostitutas e ladrões ouviria um famoso “leva pra sua casa” dos fãs de Rachel Sheherazade.

A celeuma ao redor da cruz não é um debate que se trava somente in locus, face a face, mas sobretudo no campo da comunicação. Após criarem a evangelhosfera com o domínio dos canais de rádio e TV, muitos neopentecostais perceberam que, embora crescendo em número de fiéis, sua atuação estava concentrada em cidades de pequeno e médio porte, portanto um pouco fora do circuito de debate de temas polêmicos como aborto, drogas, maioridade penal e união civil entre pessoas do mesmo sexo, para ficar apenas nesses exemplos. Enquanto os fiéis de sempre se reuniam em frente à TV ou rádio para escutar as pregações, uma nova juventude apareceu, menos preconceituosa e um pouco mais politizada, ávida por informação e de olho em uma mídia não linear que é a internet. Esses jovens, nativos digitais, diante da interatividade da web não acham a TV ou rádio tão atrativos, logo as tecnologias físicas que tornaram-se quase que patentes das igrejas. Desse modo, alardearam o que seria a última geração de intolerantes e seus meios de comunicação. Foi aí que veio a ofensiva conservadora, um novo Tribunal do Santo Ofício, só que agora com protestantes e católicos do mesmo lado, colocando homossexuais, abortivas, menores infratores e dependentes químicos, dentre outros, no Index Libro rum Prohibitorum (uma espécie de livro das leituras proibidas que identifica os inimigos). Para isso, tiveram que se render e entrar num espaço que é impossível dominarem, ainda que tenham tentado atacando a neutralidade no texto do marco civil da internet, criando uma rede por pacotes em que os mais pobres seriam limados do direito à comunicação.

Por fim, não quero aqui apontar as contradições dos neopentencostais e colocá-los como únicos culpados nesse embate de posições. Considero, sim, que há abusos em todas as partes, mas não devemos generalizar ações de grupos extremistas como se representassem mais do que as pérolas que falam e fazem. A ameaça a Viviany é só mais uma das várias que ocorrem diariamente no país. Assim como há os raivosos que ameaçam transexuais, há os que se dizem politizados por fazerem um ato colocando cruz no ânus. São duas faces da mesma moeda! Nem todos muçulmanos apedrejam mulheres adúlteras, mas há os que o fazem e acabam prejudicando a imagem do Islã. Nem todos evangélicos acreditam que família é composta somente de homem e mulher mas sim de qualquer núcleo em que pessoas são capazes de se amar. Podemos citar o exemplo do relacionamento da cantora Daniela Mercury com a jornalista Malu Verçosa ou do ídolo da infância de muitos intolerantes, Rick Martin, do grupo Menudos, que se assumiu gay (e em seguida outro menudo, Ângelo Garcia, fez o mesmo). Mas podemos citar o exemplo de milhares, milhões de brasileiros e estrangeiros anônimos que se amam ou que, como eu, são heterossexuais mas reconhecem toda forma de amor, como a música de Lulu Santos, como o comercial de O Boticário, e que lutam contra as opressões, como a que sofreu Viviany, como a que sofrem os milhares de gays alvejados diariamente pela covardia alimentada por religiosos mercadores da fé.

Embora agnóstico, tenho fé que um dia iremos evoluir para que respeitemos coisas simples como o direito de amar das pessoas, o direito à religião (e à falta dela), o direito à liberdade de expressão com suas responsabilidades. A crucificação pela qual passa a comunidade LGBT, o “aviãozinho” de 13 anos preso por tráfico, os usuários de maconha, a abortiva que tem o atendimento negado na rede de saúde, todos esses sofrem uma crucificação maior do que a de Viviany, sem o final feliz do comercial de O Boticário. Sejamos firmes de criticar, pois, o que merece ser criticado, preparando-nos para uma nova cruzada no campo virtual e nas ruas. Leia-se por ruas a participação em marchas, nos debates no trabalho, nas escolas, nas universidades, na vizinhança e, substancialmente, nas igrejas. Sejamos livres e respeitosos com seres humanos, sem restrições.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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