A greve também é espaço pedagógico

  

15 de outubro: Dia da Professora. Numa época do Estatuto da Família, que não reconhece as diferentes formas de amor, passando inclusive por cima da interpretação que o STF faz da Constituição, é importante colocar o significado da data assim, generalizado no feminino para uma profissão que tem maioria de mulheres.
Para além disso, é preciso comemorar sim, mas sem esquecer de nossas lutas. Não podemos deixar o governo incompetente do PSB e PSD acabar com o DF, como tem feito Rodrigo Rollemberg e Renato Santana. Já nos pagam com nosso próprio dinheiro, como fizeram esse mês, descapitalizando nossa previdência social (Iprev). Não obstante, o GDF deixou de pagar a última parcela de um aumento salarial acordado em 2013 e que já está defasado, ou seja, através do terrorismo de “não temos dinheiro” atacou a campanha salarial (que não veio) enquanto o SINPRO comia mosca sem fazer qualquer mobilização por ampliação de direitos, sem esperar que Rollemberg fizesse o óbvio: retirasse as garantias que já conquistamos. Vale notar que o aumento acordado em 2013 passou pelo crivo da CLDF, TCDF e MPDFT, que agora lavam as mãos sobre a questão.
Adiante, embora o DF não tenha pesquisas que identifiquem problemas de saúde dos professores relacionados ao trabalho, encontramos artigos com amostragem em RJ e SP que exploram essas variáveis, com destaque para perda da voz e problemas de audição ocasionados por poluição sonora (do sinal de presídio da escola à gritaria de alunos e alunas e barulho das ruas). 
Sobre a greve, há professoras que não querem fazê-la por achar que vai prejudicar sua turma, mas esse prejuízo é, em parte, diminuído, pois somos uma das poucas categorias que faz reposição dos dias não trabalhados. Volta e meia aparece algum iluminado para dizer que professora não deve trabalhar por dinheiro, mas por amor. Interessante notar que nenhuma dessas pessoas paga suas contas com beijos ou abraços. Um terceiro motivo que professoras alegam para não fazer greve é dizer que ela é política. Ora, qualquer greve é política! Política é um conceito que não se resume aos partidos institucionais. Tem política na igreja, na mesada de seu filho, na forma como você lida na sua reunião de trabalho ou de condomínio. Não há um só teórico da Ciência Política que dê à política um conceito que se relacione apenas aos partidos institucionalizados. As greves ocorrem por diferentes motivos, a maioria deles para ampliar direiros e outras poucas, como essa, para que aqueles não se percam, e há professoras que sempre bradam: “essa greve é política”. Seria menos infantil assumir que o problema está em você e não na greve. Portanto, se o sindicato não te representa, seja o sindicato. Se acha ridículo aposentadas que são compradas pelo SINPRO com viagens para Caldas Novas, fora as professoras que ainda estão na ativa e acham que professoras já tem muitas derrotas na vida então é melhor votar na chapa da situação que sempre ganha, não reclame da inércia do SINPRO frente aos seus direitos. Quando você continua a trabalhar normalmente enquanto outros fazem greve e terão que repor aula, você tem uma atitude oportunista. Se você se importa tanto assim com a escola, no mínimo deveria propor a criação de um fundo composto pelo aumento dado aos não grevistas e que seria investido diretamente na escola que você trabalha. Aí sim faz sentido não ganhar dinheiro numa luta que você não fez parte. Ao contrário: atrapalhou completamente! Dessa forma, você passará do status de sanguessuga para o de mecenas.
Para as direções de escola que utilizam as reuniões pedagógicas como um espaço de dar informes do GDF, entendam que vocês não foram indicados pelo governo mas sim eleitos pela comunidade. O tempo da Eurides Brito acabou! Então, deixem de coagir professoras temporárias a não fazer greve. Vocês não tem nada com isso. Isso é papel de Diretor de Regional de ensino que, ele sim, é indicado para umidificar o saco escrotal de Rollemberg. Fazer ou não greve é da vontade individual de cada profissional e não pode ser objeto de assédio moral. Quando a direção coage uma professora temporária a não fazer greve automaticamente prejudica a mobilização de todos os demais, pois impede o crescimento da pressão sobre o governo. Aliás, entendam de uma vez por todas que OU vocês estão ao lado da escola (professoras, incluindo temporárias, bem como outras profissionais, alunas e população) OU estão ao lado do governador e serão tratadas como ele. Somos nós, a comunidade escolar, que fazemos a escola acontecer e não essa matilha de vagabundos corruptos travestidos de gestores públicos que tiveram suas campanhas patrocinadas por empresas corruptas que agora cobram seu investimento. Assim, escolham com sabedoria de qual lado dessa guerra vocês irão ficar, porque nós, trabalhadores e trabalhadoras, não exitaremos na hora de identificar quem faz papel de duas caras para ajudar nosso inimigo.
Nesse contexto de greve, é importante fazermos o debate, principalmente, com professoras da área Atividades (Educação Infantil e Séries Iniciais). Estatiticamente, Pedagogia é o curso das licenciaturas que mais tem profissionais formados na modalidade a distância. Não quero aqui fazer uma crítica sine qua non à modalidade, mas é notório que a maioria dos cursos a distância não passa de uma escolinha que acha que Pedagogia é um curso pra aprender a dar aula e não que pensa a educação em seu sentido ontológico. Professora é a profissional que a todo momento é cobrada por seus resultados, numa lógica produtivista do sistema capitalista de aumentar índices para nos aproximarmos de países melhores colocados na OCDE. É assim com o IDEB e outras avaliações do Ensino Médio que se comparam ao PISA, esquecendo-se que a realidade no país é completamente distinta dos países capitalistas desenvolvidos. A avaliação, que ao invés de ser colocada como fonte de dados para colaborar com o processo de ensino/aprendizaem, é não nais do que um parâmetro para aporte de recursos e forma de intimidação da professora em sua autonomia docente. Mesmo os cursos presenciais não fogem a essa regra: professores tecnicistas que pensam a escola como uma bolha isolada do mundo em que a técnica, pensada muitas vezes em países europeus, se sobrepõe à conjuntura socioeconômica brasileira.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios já se antecipou em dizer que a nossa greve é ilegal. Até aqui nenhuma surpresa! Queria saber qual foi greve que esse escritório do GDF decretou como legal. Talvez no dia em que greve for pelo Facebook eles se pronunciem dizendo que a greve é legal, mas desde que as publicações tenham até 140 caracteres, como no Twitter. Nunca vi decretarem ilegal greve dos oficiais de justiça. A doutrina pensada pelos juristas burocratas é a do mal menor, de que é menos pior as professoras continuarem a dar aula mesmo tolhidas em seus (pasmem) direitos do que a população sofrer com uma interrupção no processo educativo, uma política social que deve ser oferecida obrigatoriamente e gratuitamente – no que tange a Educação Básica – pelo Estado. Ao que tudo indica, também o trabalho caminha para ser gratuito, ou seja, ser professora deixará de ser profissão e passará a ser vocação. No entanto, mesmo com menos despesas, a arrecadação de tributos aumentará, como ocorre agora com os ajustes fiscais de Dilma e Rollemberg.
Como podem ver, os ataques vem de todos os lados, de dentro e de fora da categoria. Resta a nós darmos a resposta política que GDF, direções tiranas, CLDF, MPDFT, SINPRO e toda sorte de parasitas que lucram com a “crise” financeira, como os banqueiros, merecem ter.
Concluindo, nesse 15 de outubro inicia-se a greve das Professoras do DF. A lição de hoje é bastante clara: venha para a greve e sejamos insurgentes contra toda forma de opressão.
Prof. Rafael Ayan

Atividades – CAIC Prof. Anísio Teixeira

Ceilândia – DF

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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2 respostas para A greve também é espaço pedagógico

  1. Curtindo aqui a minha charge, ilustrando o ótimo texto!

    Curtido por 1 pessoa

    • ayanrafael disse:

      Olá Joaquim. Parabéns pela charge, pois consegue explicar didaticamente e de forma bastante lúcida o que só consigo fazer – e se consigo – de forma longa e nem tão prazerosa ou eficaz. Mais uma vez parabéns pela charge.

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