Reflexões para entender as eleições 2015 no PSOL

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Contextualização da composição do PSOL

No dia 08 de novembro de 2015 ocorreram eleições para a presidência de diversos diretórios estaduais do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Historicamente, as eleições para direção de qualquer partido, seja qual for a sua orientação ideológica, são marcadas pela disputa de ideias de forma democrática e respeitosa. O PSOL é um partido que permite a existência de correntes, ou seja, agrupamentos de pessoas em torno de uma diretriz ideológica que tensiona as ações da sigla para seu lado. Como exemplo, podemos citar como tendências (sinônimo para correntes) do PSOL o MES (Movimento Esquerda Socialista), CST (Corrente Socialista dos trabalhadores), Insurgência, LSR (Liberdade, Socialismo e Revolução), CRZ (Coletivo Rosa Zumbi), APS-CC (Ação Popular Socialista – Corrente Comunista), APS-NE (Ação Popular Socialista – Nova Era), US (Unidade Socialista) e outras.

A US teve maioria no último Congresso Nacional do PSOL, ocorrido em Luziânia em dezembro de 2013. Com isso, o PSOL ficou sob o comando do presidente Luis Araújo, professor da Faculdade de Educação da UnB e membro da US. Participam desta corrente ou estão próximos à ela parlamentares como Edmilson Rodrigues (PA) e Ivan Valente (SP), além de Toninho e Maninha, ambos do DF. Frente à política equivocada da US de por vezes abandonar a luta nas ruas para tentar mais espaço institucional, com a política de gabinete, quase todas as correntes do PSOL uniram-se no chamado BE (Bloco de Esquerda), um agrupamento de quase todas as correntes do partido. O Bloco atua conjuntamente nas eleições para presidência do PSOL, bem como em outros espaços da luta partidária, e tem tido importantes vitórias sobre a US a ponto desta corrente ter feito plenárias paralelas aos congressos estaduais/distrital, como ocorreu no Ceará e no Distrito Federal.

Bloco de Esquerda X Unidade Socialista

Alguns militantes novos, pessoas que acompanham o PSOL não tão de perto ou mesmo a imprensa devem estar se perguntando: por qual motivo houve dois congressos em algumas localidades? O primeiro ponto a desmistificar é que não houve dois congressos. O que a US realizou no Ceará e no DF foi uma plenária, e tem todo o direito de fazê-lo. Os congressos do PSOL no DF e no Ceará, que contaram com a participação de todas as correntes, mesmo as que não se organizam pelo Bloco de Esquerda, ocorreu conforme horário e local anteriormente divulgados. não foram, portanto, um golpe. A US, percebendo que mesmo com inúmeras manobras iria perder o controle do partido, preferiu fazer uma plenária e chamar de congresso, atividade essa que não contou com nenhuma corrente além dela mesma.

Bem, isso foi o que ocorreu. Mas você ainda deve estar com dúvida: por qual razão o BE, ou seja, quase todas as tendências do partido, se unem contra a US? Para quem é socialista, essa é a questão mais fácil a ser respondida. A US, desde o congresso de 2013, tem piorado a forma como lida com as outras correntes e, além disso, repetido o erro do PT (Partido dos Trabalhadores), que é acreditar que existe aliança com setores da burguesia que tradicionalmente agem como inimigos dos trabalhadores. Vamos exemplificar para ficar mais claro…

A US tentou emplacar o senador Randolfe Rodrigues (AP) como candidato do PSOL à presidência do Brasil nas eleições de 2014. O partido disse que não faria campanha para Radolfe e alguns militantes já participavam da organização da campanha do candidato Mauro Iasi, Professor do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, candidato a presidência pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro). Foi aí que prevendo o fracasso que seria a verborragia de Randolfe nas eleições, com a militância do PSOL fazendo campanha para Iasi, a US resolveu tirá-lo de linha. Então o PSOL emplacou a gaúcha Luciana Genro, do MES, que fez uma importante campanha em pautas como a legalização do aborto, descriminalização das drogas, desmilitarização da PM, criminalização da homofobia, taxação de grandes fortunas, laicização do Estado e outros pontos. Defender essas bandeiras ou colocar o dedo na cara de Aécio Neves, definitivamente, não era tarefa para Randolfe. No DF, a US defendeu, inclusive em sua tese, a união do PSOL com (sic) setores progressistas, como o PSB de Rodrigo Rollemberg. Hoje os servidores do DF travam a maior luta contra congelamento de salários de sua história, algo que não ocorreu de forma tão desgastante nem com Arruda, Roriz, Cristovam e Agnelo.

A derrocada da US ficou mais evidente após Marina Silva conseguir no STF a criação de seu partido (seu mesmo), o Rede Sustentabilidade. Ranfolfe já caiu na Rede junto com Jefferson Moura e outros próximos à US. A propósito, é o entrevistado da semana nas páginas amarelas da Veja e as frases em destaque são todas criticando a esquerda. Tudo isso enfraqueceu a US num momento crucial, que era eleição dos diretórios estaduais. Porém, certo é que mais cedo ou mais tarde a US iria à lona uma vez que o PSOL se legitima cada vez mais como uma alternativa de esquerda nas eleições e nas ruas, política essa que não é a do tapinha nas costas bancada pela então corrente majoritária.

Perspectivas para os diretórios estaduais do PSOL

Coma a chegada da Rede, alguns militantes da US ainda avaliam se continuam no PSOL ou embarcam no carnaval ecocapitalista criado por Marina Silva, com destaque para candidaturas bancadas por empreiteiras e política econômica ditada pelo Bradesco. Ficando no PSOL,então a escolha não será pelo lado fácil da eleição, da burocratização das ações, mas por disputar um projeto socialista de sociedade, com as contradições que isso demanda. Nesse sentido, os mandatos de Ivan Valente, Edmilson Rodrigues e a luta de muitos militantes da US tem muito a somar com o partido, pois não são todas as pessoas da US que concordam com o vale-tudo eleitoral que alguns ali provocam.

É evidente que deverá haver um desarmamento em todos os lados, mesmo das correntes que sofreram por muito tempo a política autoritária da US nos diretórios estaduais. É hora de uma lavagem no partido, de retirada imediata das filiações em massa feitas em Alagoas pelos capachos de Renan Calheiros para minar o PSOL, dos homofóbicos no Acre, dos apóstolos de Daciollo no Rio de Janeiro que não respeitam o Estado Laico. A disputa do partido se faz com militantes que acreditam em socialismo e liberdade. Quem não tiver esse objetivo, sem paredão, sem ofensas, mas há dezenas de siglas para seguir e o PSOL não é seu lugar. Não sou que quem diz isso mas o estatuto do partido: se tivermos que disputar o socialismo dentro do partido então não teremos tempo de trabalho de base nas comunidades. É dessa forma que devemos chegar ao congresso nacional do PSOL em dezembro: mais experimentados, com desgastes de encontros estaduais não tão fáceis, mas também longe das trapaças que fizeram dos delegados da US o epicentro da revolução mundial que logo sumiram e nos deixaram Randolfe de presente para fazermos campanha. Esse ano os super delegados amapenses estão tão fracos que não há cpragem sequer para pedir união com a Rede.

Perspectivas para o PSOL no Distrito Federal: Fábio Felix presidente

Após a avaliação da conjuntura nacional, voltamos ao ponto inicial desse texto: as eleições para presidentes de diretórios estaduais/municipais. No Distrito Federal, é inegável que o presidente do partido, eleito democraticamente, é Fábio Felix. Toninho, assim como sua esposa Maninha, pecam pelo personalismo: a cada eleição diminuem o número de votos e capilaridade social e não formam novos militantes em sua corrente. De outro lado, Fábio Felix, negro, LGBTTT, militante da área da infância e juventude, é eleito no congresso do PSOL por unanimidade de todas as correntes, com exceção de uma: a US, que fez seu plenarinho paralelo ao congresso e elegeu Toninho como presidente.

Toninho, psicólogo do Ministério da Saúde, candidato nas últimas 3 eleições para governador, concentra seus votos no Plano Piloto, na classe média. Fábio, ex-aluno da graduação e mestrado na UnB, também tem muitos votos no Plano, mas conta com militantes que fazem sua campanha nas regiões administrativas mais afastadas e inclusive no Entorno. Toninho insiste no argumento da eficiência, da gestão transparente, algo que não deve ser bandeira mas obrigação de qualquer gestor. Fábio coloca a cara a tapa e em meio a heteros brancos e engomadinhos bancados por multinacionais, se apresenta como gay, trabalhador, opção ao conservadorismo. Toninho, com toda a sua visualização em debates para governador desde 2006, conseguiu pouco mais de 34.000 votos para governador. Fábio, um jovem de 30 anos, obteve mais de 6.000 votos disputando com centenas de nomes para deputado distrital. Toninho: o de sempre. Fábio Felix: a inovação. Fica claro perceber por qual motivo, repetindo, todas as correntes do PSOL-DF optaram por Fábio Felix para presidir o partido no biênio 2015-2017.

Não quero dizer que a carreira política de Toninho está encerrada, mesmo porque Plínio de Arruda Sampaio viveu um dos melhores momentos de sua vida política ao ser candidato do PSOL em 2010, pouco antes de falecer. “Não votem em mim pelo meu passado, votem pelo meu futuro”, disse no último debate do primeiro turno, na Rede Globo. Porém, a diferença entre Plínio e Toninho é que o primeiro, militante histórico das pastorais da igreja católica, não hesitava em defender as bandeiras do PSOL com unhas e dentes e denunciar estratégias oportunistas em nossa legenda, como a tentativa de realização de congressos paralelos. Toninho parece ter esquecido dessa parte quando defende Randolfe e aparece cada vez mais solitário em suas redes sociais, curtindo seus próprios posts e falando para si. Ao tentar se eleger presidente do PSOL-DF Toninho aprofunda ainda mais o buraco em que se enfia, do qual os números de sua votação para governador e em seu Facebook são a menor parte dessa expressão de decadência.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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