Por que reclamamos do TCC?

orientador

Os cursos de graduação são marcados, em geral, por um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Esse costuma ser o trabalho mais difícil realizado pelos(as) discentes durante sua formação inicial. Observando o debate de colegas do curso de Serviço Social da Universidade de Brasília fiquei motivado a escrever alguns aspectos que me chamaram a atenção tanto quanto aluno como ex-orientador de TCC numa faculdade de Brasília. Assim, falarei do uso das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) na realização do trabalho, plágios e a dificuldade de escrever, possíveis alternativas para contornar o formato atual de Trabalho de Conclusão de Curso e autonomia estudantil.

Um primeiro ponto a ser observado é que o uso das TIC facilitou bastante a escrita do TCC em vários aspectos: edição de texto, comunicação com o(a) orientador(a), busca de informações. Poucas pessoas sabem, mas um dos principais objetivos do resumo em artigos era porque esses pertenciam à base de dados pagas até o início do século XX. A digitalização de revistas de pós-graduação e livros, por exemplo, bem como de anais e trabalhos apresentados em encontros de pesquisa foi um passo importante para a democratização da informação. Como nem tudo são flores aumentou o número de plágios, assim como as ferramentas para identificá-lo. Um exemplo é a ferramenta gratuita e on line chamada Plagium. No Blackboard, um ambiente virtual de aprendizagem utilizado por várias universidades, há o Safeassign que indica para o próprio aluno, no envio, a porcentagem de cópia do arquivo – e que devidamente citadas deixam de ser plágio!

Lembro que em 1999, quando estava no 2º ano do Ensino Médio no Setor Oeste, escola pública de Brasília, um aluno copiou o trabalho da Gláucia, professora de química. Naquela época a web tinha disponibilizado um trilhão de trabalhos a menos de eletroquímica e o coleguinha conseguiu copiar o trabalho do site da autora sem nem ver o nome dela. Nos grupos da Secretaria de Educação no Facebook o que não faltam são (?) professores(as) reclamando que agora o concurso para docente da SEEDF terá prova de redação. Mas como assim? A pessoa será um(a) profissional da educação e não quer escrever?

O plágio revela, geralmente, uma dificuldade de escrever do(a) aluno(a) e não a falta de orientação por parte do(a) docente. Talvez por isso os(as) professores(as) sintam-se cada vez mais sem estímulo para ler trabalhos acadêmicos, não somente TCC. Reclama-se do TCC como se os outros trabalhos da faculdade fossem feitos sem dificuldade ou da melhor forma, o que não é verdade. Quando era orientador, acho que passei mais tempo corrigindo erros de ortografia, redundância, formatação e riscando os plágios do TCC do que fazendo o que realmente é substancial, que é a discussão dos dados da pesquisa e outros aspectos do conteúdo do trabalho.

Confesso que tive meus problemas com TCC. Com o TCC! Na primeira graduação, em Pedagogia, não fui aprovado na banca. Reformulei o trabalho e apresentei no mês seguinte, sem problema algum. Um dos professores que me avaliou foi o José Vieira, considerado um “carrasco” da Faculdade de Educação da UnB. Agradeço imensamente por ele ter rabiscado até as vírgulas de meu TCC. A orientação que eu tive à época, em 2008, foi grande parte através do Moodle, com minha orientadora Raquel Almeida, uma excelente e criteriosa marxista. No Mestrado, com o Professor Carlos Alberto Lopes, grande parte da orientação se deu com a troca de arquivos por e-mail, o que se repetiu agora na graduação em Serviço Social com a Professora Patrícia Pinheiro. Nos encontramos quando necessário e não porque “temos que nos encontrar”, como numa disciplina. Acho excelente: não tenho que me deslocar do outro lado da cidade para executar processos técnicos ou epistemológicos que podem ser feitos à distância. E no semestre que reprovei o TCC a culpa foi minha, não da orientadora, por eu estar com mais disciplinas ou alguma coisa assim.

A disciplina que fundamenta o TCC, no caso do Serviço Social, já existe e se chama PTCC (Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso). Se ela não é bem feita, seja pelo(a) docente ou discente, não é outra disciplina que seria a solução para isso. Uma crítica que faço também a mim: a Geração Y, acostumada ao consumo de informação compactada como uma promoção do MC Donald´s, de tanto se formar quase que somente por memes e discussões em whats app, estranha quando tem que elaborar algo mais denso. Vejo como isso é verdade ao analisar as estatísticas de meu blog: os posts com mais visualização são os que têm o menor título! É como se estivéssemos vacinados a correr de títulos grandes, porque subjetivamente pensamos: “se o título já é grande, imagina o texto?”. Daí a achar que o conteúdo a ser lido é chato é um pulo. Só pra confirmar: os títulos de TCC, artigos científicos são de que tamanho mesmo? Enormes! E quando você pensa que vai acabar vem dois pontos e um aposto com o dobro de caracteres da primeira parte do que você já leu. Pronto: pode respirar agora! Reiterando: não é problema do TCC, mas sim de gosto por estudar. Reféns de uma educação básica e graduação em que a leitura e escrita foram feitas de qualquer jeito vão estranhar uma cobrança maior no TCC. É aí que aparecem os fantasmas de nosso caótico processo de escolarização.

O modelo universitário brasileiro, inspirado na França, esbanja tecnicismo e escola tradicional, pra falar apenas duas das quatro concepções pedagógicas liberais. Estranho perceber que estudantes de Serviço Social, um curso progressista, reproduzam as relações sociais de exclusão e individualidade expressas em formatos educacionais que não deram certo nem em séculos passados. As infinitas possibilidades de orientação de TCC realizadas com o uso das TIC, de ambientes virtuais de aprendizagem como o Moodle, não são discutidas. Toda vez que vejo propostas que demandam mais tempo presencial em sala de aula, como aumentar o número de disciplinas, pondero que aí pode residir um processo de elitização. É caro e desgastante se deslocar diariamente para a universidade em cidades grandes. A retirada de disciplinas de quatro créditos que ocorriam duas vezes por semana para um horário de quatro horas num turno já é um bom começo de caminhada. Que não tenhamos o retrocesso de mais uma disciplina que não corrigiria os problemas de anos levantados aqui. Devemos melhorar a estrutura atual de nosso curso e, principalmente, a nós enquanto discentes.

Acho que tudo que fazemos na vida deve ser feito da melhor forma, na medida do possível. Nesse sentido, não há nada melhor do que ter autonomia. O problema é que as pessoas querem autonomia, mas não estão preparadas para ela. Pelo modelo engessado universitário brasileiro, não temos a prática de refazer nossos trabalhos acadêmicos e, de repente, você passa a chamar o(a) professor(a) de orientador, não tem horário marcado semanalmente, você é atendido em pequenos grupos ou individualmente e parece que, pela primeira vez em toda sua vida, o seu limite de escrita é respeitado, por mais que o limite seja o fim do semestre.

Reclamamos do TCC porque reclamamos da autonomia que jamais tivemos. Não quero aqui ser usado por docentes que de fato não cumprem o seu papel de orientação, mas tenho convicção que a maior parte das reclamações é porque não sabemos ter autonomia porque sequer sabemos o que significa a palavra, menos ainda sua aplicação. Se quisermos ser sujeitos de nossa história, não só o TCC mas todo o ensino deve ser mudado.

Podemos começar entregando trabalhos antes do prazo para que os(as) professores(as) possam nos dar um feedback e, percebendo nossos erros, melhorar a produção. Para docentes que acham que terão trabalho em dobro, afirmo que terão trabalho pela metade e contribuirão muito mais para o crescimento dos(as) alunos(as). Outra exigência que devemos fazer é melhorar a comunicação virtual instantânea: é broxante chegar pra assistir aula e encontrar o comunicado “não haverá aula hoje”, algo comum nas duas primeiras semanas de aula. Esse serviço de comunicação não deve ser do professor(a), mas algo institucionalizado: aviso no site do departamento e envio de mensagem SMS para os celulares dos(as) alunos. Ainda sonho o dia em que toda comunidade acadêmica terá seus dados atualizados no site da universidade e nossa comunicação não será a mesma da década de 1980.

Quem sente falta de orientação para o TCC, grupo de pesquisa ou disciplina, deve solicitar isto ao(à) docente e não transformar em uma prática do departamento. Da mesma forma, seria interessante que nem todas aulas fossem presenciais, mas houvesse liberação das mesmas para participação em palestras, ver filmes seguido de debate, convidar profissionais, construção de seminários etc. Há professores(as) que abusam de trabalhos em grupo e outros que exageram em aulas expositivas. A diversificação é algo que deve ocorrer nos métodos de ensino e no aprendizado. Se o(a) docente se interessa por outras formas de ensinar, o(a) aluno(a) deve se interessar por outras formas de aprender.

Por fim, seja um TCC ou qualquer outro trabalho acadêmico, quanto mais nos dedicarmos à seu aperfeiçoamento, melhor estaremos preparados para a dinâmico do mundo do trabalho, principalmente em mercados altamente competitivos como é o caso de Brasília e outras grandes capitais. Tenha certeza que no dia em que concluir a apresentação de seu TCC e for aprovado a primeira coisa a pensar vai ser: “carai véi, passei!”. Então comemore muito. Não será o primeiro nem o último desafio de sua vida, mas todas as conquistas merecem ser comemoradas com as pessoas que amamos.

Uma ótima madrugada à todos(as) que estão no TCC.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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