O ódio ao PT e o ódio do PT

brigagoverno

Mais um dia de manifestações contra o governo e as brigas nas redes sociais denunciam o que cada um dos lados, o que defende e o que ataca o governo, têm a oferecer para a sociedade: ódio. O discurso do ódio não pode mais ser colocado como patente do lado A ou B, mas está presente em ambos. Aliás, já passou do discurso para práticas absurdas como as agressões físicas.

O PT luta para tentar concluir seu quarto mandato consecutivo. Após 3 derrotas também consecutivas de Lula ao Planalto, o partido que nasceu dos movimentos sociais, das greves, das ocupações estudantis, abre mão de toda a sua história e passa a governar como os seus antecessores. As conquistas como o aumento do salário mínimo e facilidade de crédito para compra de eletrodomésticos da linha branca e financiamento da casa própria cedem lugar a uma das mais graves crises econômicas do país, ou seja, volta-se à estaca zero e com um agravante: o partido que reclamava a bandeira da ética para si é o centro de inúmeras investigações.

Se formos pensar qual o avanço que o PT teve de 2005, ano do primeiro grande escândalo do partido que foi o mensalão, para 2016, com o cerco se fechando em torno de Dilma, Lula e outras figuras do governo, vemos que nada mudou. Ao contrário, a legenda se envolveu em crimes cada vez piores, com personagens nefastos que jamais deveriam ter passado nem de avião pelo PT. A militância ficou a reboque da mídia que criticava, procurando deslegitimar as graves denúncias feitas ao partido. Mesmo que as denúncias fossem aumentadas por setores da mídia corporativa e pela elite que não aceitou perder poder, com o tempo, essa mesma mídia,  essa mesma elite, passou a ver que o PT não representaria risco aos seus lucros.

Os bancos, por exemplo, conseguiram sucessivos recordes de lucro. O agronegócio cresceu assustadoramente sobre a agricultura familiar e aprovou um código que retrocede no respeito ao meio ambiente. Os grupos de mineração cavam tantos buracos no solo quanto na economia e para quem achava que o país lucrava com esta atividade, basta ver o estrago que a Vale do Rio Doce fez em Minas Gerais e Espírito Santo para perceber que não existe fiscalização alguma. A Bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) nunca esteve tão forte na Câmara dos Deputados. E o PT? Onde estava esse tempo todo? Estava se coligando com toda a sorte de bandidos e fazendo com que o Congresso Nacional se transformasse num espaço ainda pior e sem possibilidades de ação até para os governos petistas com suas propostas reformistas e de conciliação com o Capital.

A última esperança do PT seria a sua militância, mas esta também se degenerou. Assim como o PC do B, que comanda a UNE há 3 décadas, o PT caiu no discurso revisionista de João Amazonas e acha que é possível fazer um governo de coalizão com partidos historicamente corruptos como o PMDB, PP (o filho prodígio da ditadura) e as recém criadas legendas de aluguel como PSD, PROS e outros. A sigla comandou tantos esquemas de corrupção que é impossível qualquer juiz, tribunal ou até os petistas perceberem o que fizeram com o dinheiro dos impostos da população. A militância petista sequer defende o governo, visto que é tarefa impossível. Se uma pessoa for paga para ficar o dia inteiro à disposição do PT para tentar defender a sigla de suas lambanças, ela não consegue. Quando falam algo do PT, respondem de imediato:”ah, mas o PSDB fez pior”. Então foi esse o objetivo do PT chegar ao poder, quer dizer, fazer um governo menos pior que o do PSDB? Isto é difícil? Ainda que o PSDB tenha feito coisas piores, e eu tenho certeza que fez, significa carta branca para o PT continuar com sua política de “toma lá, dá cá” e mergulhar o país no precipício econômico?

Porém, ainda que com toda essa crise econômica e política, para usar as palavras do Planalto, uma coisa é reivindicar contra a corrupção e outra completamente diferente é querer a volta dos militares, tirar foto com corruptos como Jair Bolsonaro (citado com Aécio Neves no esquema da Lista de Furnas) ou querer bater em uma pessoa simplesmente porque ela passou com uma camisa vermelha pelo meio do “seu” protesto. Existem essas pessoas nos protestos contra o governo? Claro que existem, mas são minoria. Esse é o ódio ao PT que o Brasil não precisa.

De outro lado, de nada adianta a militância petista dizer que quem participa dos protestos contra o governo são pessoas homofóbicas, machistas e que querem a volta da ditadura militar. Este é o maior absurdo que se pode dizer e afunda o PT ainda mais na crise que ele próprio construiu. Ora, há milhares de pessoas nas ruas e milhões que, mesmo em casa, não suportam a Dilma. Falta ao PT tomar ter vergonha, assumir seus erros – ao invés de dizer que o PSDB é pior – e perceber que colocar a pecha de elite e intolerante nos manifestantes só afasta o governo do povo. Parodiando Wesley Safadão: “99% é anjo, perfeito, mas aquele 1% é vagabundo”. Não queira o PT dizer que todo mundo que foi às ruas é discípulo do Malafaia e Feliciano. A favela também já começa a bater panela. As pessoas podem – e devem – se indignar sem serem insultadas pela militância petista, perdida no debate político. Os bonecos infláveis do Pixuleco, Acarajé ou outros nomeados pelos sinônimos de propinas inventados pelo PT não devem ser furados – isso é antidemocrático! Pessoas que fazem isso devem ser presas tanto quanto as que atiram para o alto na Marcha das Mulheres Negras, pois são todas criminosas. Esse é o ódio do PT que o Brasil não precisa.

Estava dias desses à noite no Sol Nascente, a maior comunidade da América Latina. Quando começou o discurso da Dilma, adivinhem: panelaço! E aí, vamos dizer que essas pessoas carentes, que moram em barracos em locais sem saneamento básico e qualquer intervenção do Estado são sexistas, burras e que não tem cultura? Vamos dizer que elas precisam de aulas de história? Bem, pelo menos votar elas sabem. Ao menos o PT não reclamou quando eles votaram em massa na Dilma ou em Lula nos últimos anos. O quê houve da eleição pra cá? Ficaram ignorantes?

O PT colhe o que plantou. Foram suas coligações que fizeram o conservadorismo crescer no Congresso e na população. A inclusão pelo consumo, e não pela cidadania, criou sim pessoas intolerantes, mas mesmo elas têm o direito de reclamar. A auditoria cidadã da dívida externa brasileira é uma bandeira histórica da legenda. O quê fez a Dilma? Vetou que esta auditoria fosse realizada, seja com a participação da população ou até pelos técnicos liberais dos órgãos de tributação e controle fiscal. Depois o PT vem reclamar quando nem mais os partidos de esquerda querem participar de seus atos. Ora, se o governo é de direita, que chame os partidos de sua base para as manifestações pró-Lula. Nessa disputa de discurso e outras práticas de ódio, não há somente duas opções: ou marcha contra ou a favor do governo. Esse é o pensamento do “voto no menos pior” que o PT vem trabalhando desde 2003. O resultado do voto no menos pior é o caos atual.

Se me chamarem para um ato contra a ditadura no país, ou contra a demissão de trabalhadores, ou de luta por direitos LGBT, ou contra a tortura, certamente irei. Porém, o PT não quer organizar atos contra o conservadorismo mas sim para defender Lula e outros aloprados petistas. O próprio Lula defendeu as empreiteiras no dia em quefoi conduzido coercitivamente à Polícia Federal e a militância petista quer sua volta. É evidente que não há possibilidade alguma de defender esse governo. Tentar pegar atos e transformá-los em algo para defender o governo, como foi tentado no ato do Dia Internacional da Mulher, é promover a confusão entre a militância de esquerda. Por isso, adianto, os atos do PT dos dias 18 e 31 de março serão esvaziados. O número de pessoas que desacreditou no partido aumentou exponencialmente e este parece ser um processo que não vai ter fim.

Também não participarei dos atos contra o governo. Não porque ache que marcharei com a direita, mas porque não há provas contundentes para tirar Dilma do poder, bandeira que esses atos vem afirmando. Esse tipo de atitude abre espaço, em nossa frágil democracia, para golpes como o que vivemos de 1964 a 1985, por mais que muitas pessoas não percebam ou até não queiram isso. E para os que querem Aécio Neves ou Marina Silva, saiba que as campanhas deles foram pagas pelas mesmas empreiteiras que doaram ao PT, então que sejam justos e solicitem que eles não participem do pleito também. Os cybermilitantes inconsequentes não percebem isso, mas não exitam em tirar foto com canalhas como Eduardo Cunha.

O golpe está pronto e o ódio, de todos os lados, só é bom para quem quer derrubar o governo. Que a militância petista pense nisso antes de dizer que manifestantes são todos coxinhas. E que agora, mais do que nunca, percebam que aquela história de “temos que governar com a burguesia” não levou a lugar algum senão à ruína do próprio PT.

#asaidaépelaesquerda

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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2 respostas para O ódio ao PT e o ódio do PT

  1. Rackel Corrêa disse:

    Texto irretocável Chakrinha! Parabéns pela assertividade no discurso!

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