Pobre também pode manifestar

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Na noite dessa quinta-feira, 24/03/2016, em ato contra a Rede Globo em Brasília, foram presos os camaradas Yuri Soares e Chico Carneiro com seu filho de 5 anos, Uirá. A ação da PM, completamente desproporcional, infelizmente não é a primeira. São vários os exemplos de abuso da força policial que, estranhamente, agem de forma mais enérgica quando estão em atos de classes populares, contra veículos de comunicação como Globo e Veja ou contra governos autoritários.

Para quem acha que manifestação não é lugar de criança é bom dizer que há pouco tempo diziam que política não é lugar de mulher e cidadania não é lugar de negros. Os direitos conquistados pelas mulheres e negros vieram tardiamente no Brasil e são fruto de muita luta, da tomada do espaço público como algo que deve ser representativo de todas as demandas da sociedade. Lembro bem de que no Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre, participei de atividade em que as crianças, até as que não sabiam ler ou escrever, participavam do orçamento de uma escola pública. A experiência no estabelecimento de ensino foi tão boa que estavam pensando em ampliá-la para as outras escolas, públicas e particulares, para posteriormente ser adotado algo parecido no orçamento participativo do município. Esta é uma boa forma de perceber como as crianças podem ser protagonistas de seu processo histórico e colaborar com os adultos na discussão de sociedade que querem.

Para quem é contra crianças em manifestação, olhe para os atos na Europa, berço da civilização ocidental, e observe que em vários deles há crianças participando: Alemanha, Bélgica, França, Grécia, Holanda, Inglaterra e Itália são alguns dos países em que crianças figuram entre os manifestantes. Nesses países, várias manifestações são organizadas por liberais, contra aumento nas mensalidades de faculdades ou por direitos civis como casamento igualitário e não criminalização do aborto. A participação em atos públicos está na vida do povo francês desde o seu nascimento. Paris é uma eterna avenida de manifestantes e universidades como Sorbonne são palcos de grandes paralisações nacionais.

Na maioria das vezes as manifestações ocorrem tranquilamente, sem atritos com a polícia. Em outras, há confrontos violentos, com lançamento de coquetéis molotovs e depredação de empresas multinacionais. O mais interessantes é que a quase totalidade dessas pessoas não se identifica com ideais socialistas e querem melhor distribuição de renda dentro do regime capitalista em que vivem. Detalhe: por piores que sejam estas manifestações, muito antes de conflitos, as crianças são retiradas pelos pais e até os adultos que preveem o confronto com a polícia saem do ato. As pessoas que ali participam são trabalhadores e liberais, bem diferentes do estereótipo de “comunista desempregado e maconheiro” que algumas pessoas querem taxar quem manifesta.

No Brasil, há quem ache que manifestação não é lugar de criança. É uma opinião e deve ser respeitada. Porém, se perguntarmos à essas pessoas o motivo de não quererem que seus filhos participem de atos públicos e exerçam sua cidadania elas dizem que é inseguro e que criança não entende as razões pelas quais estão protestando.

Ora, há uma probabilidade muito maior de crianças serem vítimas de violência em bares, estádios, assembleias de sindicatos ou até mesmo na escola por professores fascistas que passam a maior parte do tempo julgando o que os pais fazem com o dinheiro do Bolsa Família do que dando aula. Embora professores não saibam, isso é agressão e reflete na forma como o trabalho pedagógico é organizado para aquela comunidade. No Rio de Janeiro, somente nos três primeiros meses de 2016, foram cinco os casos (pasmem) de bebês agredidos porque usavam vermelho! Isto significa que além das crianças não poderem ir à manifestação, não podem vestir vermelho para ir passear e os pais não devem receber Bolsa Família. Não quero aqui defender que qualquer ambiente é bom para crianças, como os bares, mas são as generalizações que me preocupam.

Há mil coisas que fazem para as crianças e elas não entendem, inclusive festas milionárias para comemorar aniversário de um ano. Não é a segurança ou a compreensão o cerne do debate, mas sim o de querer que os pobres e sua prole permaneçam sem protestar. Se possível, que esses pobres ajudem a construir o discurso do opressor: “sou contra filho de pobre ou de rico ir à manifestação, criança é criança, não existe isso de classe social”. Pode ter certeza que o rico desde cedo constrói a cidadania de seu filho em todos os espaços, principalmente os que os pobres não ocupam, seja a manifestação ou os espaços de aquisição de capital cultural como a escola, museus, cinemas, shows, viagens, escola de idiomas e outros.

Não é certo usar criança de escudo contra fundamentalistas, sejam eles militares ou civis. Isto é lamentável. A proposta é a de que deve-se trabalhar para mostrar que o espaço público é livre para manifestações, contra ou a favor de qualquer governo, e que isto tem que ser respeitado por quem discorda de sua opinião. No ato contra a Globo em Brasília, por exemplo, não houve provocação alguma por parte de civil, mas foi a própria PM que desestabilizou o protesto. O policial militar que deteve o perigoso Uirá com sua ficha criminal que todo garoto de 5 anos tem é tão ignorante e despreparado que mandou que o camburão levasse a criança para a DCA (Delegacia da Criança e do Adolescente), como se ele tivesse cometido algum delito.

Se queremos ser um povo que respeite os direitos humanos devemos começar por cortar as nossas atitudes que legitimam as ações violentas da polícia. A detenção de Uirá, do pai Chico Carneiro e de Yuri Soares foi abusiva e ganha legitimidade se as pessoas vomitam seu moralismo dizendo “o quê uma criança de 5 anos estava fazendo em manifestação?”. Se pensarmos assim, nunca chegaremos ao nível de outros países em que pessoas não precisam de partido ou outras organizações oportunistas e corruptas como MBL (Movimento Brasil Livre), Revoltados On Line (do garoto propaganda e estuprador confesso Alexandre Frota) e Vem pra Rua para serem chamadas às ruas.

A foto que ilustra esse post é de um diretor de futebol do Flamengo indo para a manifestação do dia 13/03/2016 no Rio de Janeiro, com mais de 300 mil participantes. Ela foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais. Nenhuma sociedade protetora dos animais reclamou do Poodle no protesto. Ninguém, por mais que ache que lugar de criança não é em atos, reclamou do diretor ter levado os dois filhos ao protesto carregados pela babá. São essas ações que as pessoas fazem e não percebem que acabam por revelar seu preconceito de classe. Pobre também pode – e deve – manifestar. Que tenham a decência de não criminalizar Chico Carneiro por levar o filho Uirá, de forma segura e com a mãe, à um protesto contra uma emissora que há 50 anos constrói as opiniões moralistas dos brasileiros, ainda que eles não saibam.

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal).
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