Haddad foi o único ministro a acolher a Pedagogia


Daqui a 3 semanas essa imagem faz 13 anos. É uma foto que tem muita história e representa muito do momento político atual. Foto: Antonio Rodrigues “Kromado”.

Você estuda ou estudou Pedagogia? Saiba que a única vez que representantes de estudantes de Pedagogia foram recebidos por um Ministro da Educação em quase 100 anos de MEC foi por Fernando Haddad – aliás, nenhum ministro jamais recebeu. E saiba que o movimento estudantil de Pedagogia foi convidado a voltar para um encontro político com Haddad. Conheça essa história…

Em 2005 a Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), juntamente com o Centro Acadêmico Pedagogia do Oprimido da Universidade de Brasília (CAPe/UnB), organizaram o VII FoNEPe (Fórum Nacional dos Estudantes de Pedagogia) em Brasília. A UnB sediou o evento. No dia 14/11/2005, aniversário de 75 anos do MEC, fizemos um ato no Ministério da Educação (MEC) reivindicando que as Diretrizes Nacionais (DCN) do Curso de Pedagogia não fossem aprovadas antes de reunião com a ExNEPe para discutir o tema.

O CNE (Conselho Nacional de Educação), responsável pela formulação das DCNs, estava com um projeto que os estudantes de Pedagogia avaliavam como ruim para a nossa formação. Pois bem, durante o ato, conseguimos com que uma comissão, inicialmente com 3 estudantes, subissem para negociar com o Chefe de Gabinete da Secretaria Executiva do MEC, Alberto Kopittke. Fui uma das pessoas escolhidas para essa comissão e negociei para que mais 6 pessoas entrassem como parte da comissão, além de 3 estudantes de Pedagogia que iriam “cobrir a comunicação do evento”, sendo a Erin Conceição, da UFSC, e o Antônio Rodrigues “Kromado”, da UnB.

Alberto nos recepcionou e nos levou ao gabinete, ao que apresentamos as reivindicações quanto às DCNs. Num dado momento, Fernando Haddad, que havia acabado de chegar de uma viagem, entrou na sala do chefe de gabinete e, mesmo tendo outra reunião agendada, parou para nos ouvir. Ele poderia ter ido embora ou simplesmente não ter entrado na sala, pois viu a manifestação ao chegar ao prédio e foi avisado pela assessoria que os “xiitas” habitavam a sala do chefe de gabinete. Haddad, que não é de fugir de debate, pagou pra ver! Após explicarmos o motivo da manifestação, solicitamos ao ministro que ele assinasse um documento se comprometendo a não homologar as DCN do CNE sem antes fazer uma reunião presencial com a Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia (documento ao lado). Enquanto isso, voltaríamos à UnB para construir uma contraproposta para apresentar ao MEC e ser debatido com o CNE.

Pelo fato da Executiva ser bastante desorganizada e não ter sequer um site ou telefone de contato, a assessoria do MEC entrou em contato através de meu e-mail pessoal, solicitando uma reunião em cerca de 2 semanas. Avaliamos que não tínhamos condições de participar em tão pouco tempo, até pelo caráter do movimento estudantil não conseguir se deslocar com facilidade em um país de dimensões continentais como o Brasil sem planejar com bastante antecedência – daí nossos encontros serem sempre nas férias de julho e os menores nos feriados de abril e novembro. Então, pecamos pela nossa desorganização, mas Fernando Haddad não só nos recebeu como nos convidou para retornar e apresentar a nossa contraproposta de DCN – que está sendo escrita até hoje!

Por isso, se você estuda ou estudou Pedagogia, vai lembrar que a partir de 2006 acabaram aquelas inúmeros habilitações como Normal Superior, Ciências da Educação e outras, restando apenas Pedagogia. O professor Erasto Fortes, Naquele tempo diretor da Faculdade de Educação da UnB e hoje no CNE, chegou a contar cerca e 100 habilitações análogas à Pedagogia. Bem, fato é que Haddad consultou outras organizações, como o Fórum Nacional de Diretores de Faculdades, Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR), A Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) e homologou um documento para tentar um consenso que, obviamente, não seria (como não foi) bem visto pelo Movimento Estudantil de Pedagogia, mas hoje percebo que temos uma profissão com o mínimo de identidade. O setor público (vide principalmente concursos) e a iniciativa privada reconhecem no Pedagogo alguém com formação muito mais abrangente que o foco na base docente, como colocavam as primeiras resoluções do CNE.

Em 2007 participei de minha segunda gestão no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UnB, na Executiva de Estudantes de Pedagogia do DF e na Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia. Posso contar os inúmeros atos que fiz contra ações de Fernando Haddad que considerei equivocadas, algumas delas que já revi e penso de outra forma e outras em que estou ainda mais convicto do erro do MEC. O mesmo digo sobre o governo Lula. Contudo, é fato que Haddad sempre foi aberto a receber os movimentos sociais no ministério e nunca pesou contra ele qualquer denúncia de corrupção – vindo agora em ano eleitoral somente para desgastá-lo e tentar eleger Alckmin, que ficou em 4º lugar na corrida presencial e viu os tucanos encolherem significativamente no mapa político devido à sua política de terras arrasadas com Lava Jato, Globo e Folha de São Paulo, que agora vêm com o rabo entre as pernas arrependidos do monstro fascista que criaram!

Manuela D´Ávila, vice na chapa de Haddad, foi a vereadora mais jovem eleita por Porto Alegre em 2004. Mesmo após vereadora, continuou a participar do movimento estudantil e alavancar seu grupo político, a UJS (União da Juventude Socialista), que parasita a União Nacional dos Estudantes (UNE) há 30 anos. Contudo, Manuela está longe de ser uma inimiga de classe. Jornalista, será um elo importante de Haddad com a mídia e os movimentos sociais. Não é uma vice metida a rica como Mourão, que não vê a hora de ocupar o Palácio do Jaburu e articular a perda de mais direitos dos trabalhadores – para quem achava que com Michel Temer estava pouco.

 Fernando Haddad é qualquer coisa, menos uma pessoa sectária que não sabe dialogar com o contraditório – ainda mais nesse período de polarização e ódio pelo qual passa a sociedade brasileira. Escolher Haddad não é dar carta branca ao PT e quem fala isso é alguém que votou pela primeira e última vez no PT em 2002. Desde o início do governo Lula me organizo na oposição, construindo greves na UnB, lutando pelo passe livre, pegando sol na cabeça pra participar de assembléia de professores quando ainda era estudante de graduação e me filiando ao PSOL em 2013, enxergando na via institucional também (mas não só) uma forma de aumentar um grupo de pressão ao governo. Não sou militante de redes sociais, de compartilhar meme e achar que lacrei e fiz a diferença pro país. Fui detido 3 vezes, algemado em duas delas, militando pelo movimento estudantil. Cheguei a responder processo por isso. Até hoje carrego cicatriz na mão direita porque fui jogado numa caminhonete blazer por cima de dois outros estudantes e o policial bateu o porta-malas umas 5 vezes até fechar. Vergonha? Jamais. Orgulho define, faria tudo de novo, e numa democracia temos a garantia de, se presos, sabermos que não passaremos pelo pau de arara, como não passei, embora excessos de quem quer que a ditadura volte sempre existam.

Faço esse registro pessoal porque vejo nas redes sociais muitas pessoas que militaram comigo contra as reformas do PT, desde a Reforma da Previdência em 2003 até o anteprojeto de Reforma Universitária do Átila Lira, o Plano Nacional de Educação e muitas outras bandeiras que carregamos lado a lado. Nós mudamos? Não, continuamos os mesmos. A conjuntura política mudou? Completamente. Não estamos mais diante de uma disputa no campo democrático entre o trabalhismo de centro e a social democracia paulista. A eleição de Haddad certamente me fará continuar a organizar muitas outras greves, fechamento da Esplanada dos Ministérios, atos em autarquias federais e agências reguladoras, mas a eleição de Bolsonaro, como o próprio disse essa semana, me levará para a cadeia, e sabemos bem o que a cadeia em regimes autoritários é só um estágio para o desaparecimento

Se você fez Pedagogia, você faz parte dessa história direta ou indiretamente e não vai trocar os erros do PT pela democracia. Ajude a divulgar para outros(as) colegas da Pedagogia.

Vai na fé colega! Domingo é Haddad 13!

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Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) na Cidade Estrutural, DF.
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